A lâmpada da casa do guarda ilumina-se a si própria no calor da tarde. Hoje ainda não choveu, mas o vento sopra e traz-me sons da cidade. Devem ser 5 da tarde porque oiço o som vindo da mesquita que chama para a oração. Acho. Não me ocorre que seja outra coisa. Não consigo distinguir o que farão as outras vozes que se lhe sobrepõem. São, provavelmente, as vozes da azáfama do mercado.
Os pássaros simples de Gabú chamam-se abutres e devem ser eles que se ouvem nos céus. É muito estranho passar por uma família de abutres na rua, ou sentir o seu olhar implacável e vigilante ao cimo de um telhado.
A nível, perdão, Aníbal de pássaros já preferia outro. Mas como tudo faz sentido naquilo que a natureza produz… é óbvio que Gabú é uma lixeira a céu aberto e que, os ditos bichos, vulgo bichesa (nova designação do Hugo) sabem onde poisam o bico, literalmente…
Pessoa que nunca tenha posto o pé nesta terra (ou seja o universo de gente que eu conheço) há-de tardar em perceber o encanto de um lugar designado por “lixeira a céu aberto”. E se eu acrescentar que, hoje de manhã, duas das minhas companheiras foram assaltadas, ou melhor, “vítimas de furto”, em plena luz do dia e envolvidas de muita paz; esse encanto será ainda menos compreensível. Mas olhem que tem: esta cidade tem muito encanto.
E se eu disser que estou hospedada na casa onde o próprio Nino dorme, quando cá se desloca (dizem eles) e que tem um balde em vez de autoclismo, um chuveiro que nunca chega a fechar e que essa casa está toda cagada…
Esta cidade tem muito encanto.
E que eu estou a despertar de uma sesta, depois da aventura da formação, onde os 26 alunos de ontem se transformaram, como que por magia, em 40, o que, efectivamente, é extenuante numa sala de aula sem isolamento de som do exterior, carregada de pregões e vozes simples e passos apressados e brincadeiras de crianças e tudo. Tudo menos silêncio, um tal de fenómeno necessário quando queremos que uma plateia assim só nos oiça a nós.
Esta cidade tem muito encanto.
Ao cair da noite também.
Tem muito encanto.
Quando saí de casa para passear no mercado e fazer a alegria dos poucos comerciantes que conseguiram enganar, mais uma vez, o “branco pelélé”, tive, tivemos (eu e a Ana) o segundo susto do dia: um grupo de jovens rapazes, que celebravam o ritual do fanado, cercou-nos de forma ameaçadora, quando a Ana tirou uma foto… Confesso que o som de catanas a dois palmos do meu nariz não foi das coisas mais simpáticas que já me aconteceu.
Mas passou.
Tudo passa rapidamente, mas a intensidade de cada momento, de cada experiência, de cada gesto, de cada imagem… há-de ficar para sempre inscrita na arca de emoções de cada um de nós.
Amanhã é dia de viagem e de véspera da despedida da Carina. Aprecio cada vez menos essa coisa do “adeus”, mesmo que seja apenas um “até já”.
O Bucari vai connosco a Bissau e, com muita sorte, aos Bijagós, em bora as esperanças de que exista um barco disponível sejam cada vez mais reduzidas… Hoje jantou connosco no “pó di terra” (lá mastigou sob protestos o arroz “perfumado”), mas antes ainda tivemos o ritual Warga, pela primeira vez todos juntos. O warga bebe-se bem, mas o mais interessante é todo o ritual. Trata-se de uma espécie de chã muito amargo, que chega a ficar espesso, muito espesso, de tanto açúcar que leva! No total, entre ferver, misturar e beber é cerca de uma hora muito zen e muito bem passada.
Ele foi-se embora. Estivemos a ver fotos de Béli no computador e eu vim para esta maravilhosa varanda, que se abre para o portão (aberto) da casa do governador, e que me há-de sempre fazer lembrar toda a imensidão paisagística de África. Terei seguramente muitas saudades deste espaço, desta nova luz de vela que me acompanha a escrita e, até, do toque da mão a roçar este caderno, da sombra desalinhada da luz de vela, do cantar dos grilos e do (já) longínquo coaxar das rãs de Béli.
Passou quase um mês. Apenas. Pareceram décadas. Décadas intensas, que me apetece prolongar…
Adormece, Gabú!
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