sexta-feira, 2 de novembro de 2012

11 de Setembro


Não vi notícias. Só agora reparei na data.
É quase meia-noite, acho. A cidade está silenciosa. Os sons desta varanda são os mesmos de sempre: grilos e gerador. Fizemos uma tentativa frustrada de levantar os ânimos, mas é demasiado penosa a melodia da despedida. E Béli aqui tão perto… 80km impossíveis de percorrer. A mim apetece-me muito voltar. Acho que a todos.
O trabalho em Gabú foi excelente em todos os aspectos, e as pessoas são extraordinárias, mas ao sair daqui a saudade que bate é a da minha gente de Béli.
Dói-me a cabeça. Vou dormir.
Até já, Portugal...

sábado, 8 de dezembro de 2007

Outros dias na memória

Primeiro minuto de 13 de Setembro

Queria acordar em África e adormecer na Índia. Queria ter um sonho que não fosse proibido numa ilha do pacífico, mas se um anjo me revelasse o teu nome ia visitar-te ao paraíso, meu piquenique.

Setembro, 12



Hoje é o aniversário do Amílcar Cabral. O acontecimento está a ser celebrado com uma marcha que percorre o país, desde Logajole até Bissau. Chamaram-lhe: “marcha da independência”. O ambiente nas ruas e na casa do nosso vizinho/anfitrião é festivo.

Ainda bem que aproveitei a manhã para fazer “coisinhas” porque agora chove “banana i manga” e não dá para sair de casa.

Mas mesmo sentada na varanda consigo ter imagens soberbas e (ainda) surpreendentes deste país. No campo de futebol, à minha esquerda, os putos chapinham com a bola na lama e conseguem, não sei muito bem como, encontrar-se entre a cortina baça que a chuva monta. Um guarda-chuva segue-os. Diz-nos o Bucari que é o árbitro, como se isso fosse um cenário óbvio. Os abutres arrastam-se em nuvens pelo terraço do governador. As palmas e os gritos sucedem-se na mesma casa.

Aqui visitam-nos pessoas. Sentam-se e ficam. Outras vão, quando têm que ir, nem que sejam já “quinhentas”. As emoções descongelaram. Estavam, afinal, ainda muito longe do que agora são. As reacções físicas começam a manifestar-se.

Acho que vou quebrar a regra e escrever este dia, amanhã, ou depois, ou… um dia, quando estas coisinhas forem fanadas (passo a expressão tétrica) pelo tempo.

11 de Setembro


Não vi notícias. Só agora reparei na data.
É quase meia-noite, acho. A cidade está silenciosa. Os sons desta varanda são os mesmos de sempre: grilos e gerador. Fizemos uma tentativa frustrada de levantar os ânimos, mas é demasiado penosa a melodia da despedida. E Béli aqui tão perto… 80km impossíveis de percorrer. A mim apetece-me muito voltar. Acho que a todos.
O trabalho em Gabú foi excelente em todos os aspectos, e as pessoas são extraordinárias, mas ao sair daqui a saudade que bate é a da minha gente de Béli.
Dói-me a cabeça. Vou dormir.
Até já, Portugal...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

10 de Setembro de 2007



O meu “objecto cardíaco” recomeça a bater de forma novamente nova.

O Bucari acaba de sair desta varanda com lágrimas no rosto. Ofereci-lhe um livro que lhe causou alguns arrepios. Talvez por não ser um livro qualquer, talvez por ter percebido a despedida com mais certeza, ainda. Não sei. Não tenho vontade de escrever as minhas vontades de hoje. Talvez não seja justo escrever sobre as vontades dos outros.

O dia foi muito bom, outra vez. Acho que nunca tive um dia que, verdadeiramente, não fosse bom, neste país.

A evidência da saudade estrangula-me a corrente desenfreada de palavras.

Dormirei, não em busca da tranquilidade, mas na esperança de a não perder.

Boa noite, amigos novos!

domingo, 2 de dezembro de 2007

Domingo, 9 do 9


Domingo, 9 do 9

Espirrei. Agora é esperar para ver o que acontece. Há uma parte de mim completamente preta: os pés. As sandálias desbotam e como passo a vida a chafurdar na lama e a escolher a melhor poça de água para lavar os pés a seguir… enfim, coisas de cá.

Hoje, organizámos uma festa/convívio no centro multifuncional. Começou “à partir di 4 hora”, que é a forma correcta de dizer horas certas na Guiné. Eu acho que passarei a usar essa e outras expressões que me parecem adequadíssimas ao contexto português.

Não aprendi a falar crioulo, mas já percebo muito bem muitas coisas. Tem uma lógica muito cultural, por isso, depois de se conhecer um pouco a cultura, entende-se melhor este português mal falado. Tem também algumas semelhanças, pela proximidade com o Senegal e a outra Guiné…

A festa correu bastante bem, apesar da chuva. E por falar nisso: acho que estes guineenses são um “cadito” medricas. Basta chover para a discoteca não abrir (eu sei que a pista é ao ar livre, mas não e justificação). Eu dancei e as crianças acharam muita piada… inventei umas coreografias e todos me imitaram cheios de sorrisos.

Tudo aqui é facilmente transformado num sorriso. Eu sei que me ando a repetir nesse campo, mas é impossível não ceder ao fascínio da evidência.

Vi mais sorrisos num dia de Guiné-Bissau do que num ano inteiro de Portugal. Não é que a comparação faça muito sentido… é só para nunca mais me esquecer que a alegria e os sorrisos não custam nada e que, mesmo que me pareça que o mundo vai desabar sobre a minha cabeça… “Ca tem problema”!

E mesmo depois de saber que os “djimbés” não vieram de Béli e que lá se foram 40.000 franc… “ca tem problema!”.

Arruínam-se as últimas horas. Hoje seria noite para sair: há um tapete de estrelas no céu de Gabú, mundial de estrelas”, como diria o Bucari, e as “rabadas” da cidade devem estar já no auge da agitação. Mas nós estamos cansados. É que, a brincar, a brincar, somos das poucas pessoas que trabalham e cumprem horários, nesta terra!

Ainda não são dez e meia e já só pensamos em dormir. A Cátia, claro está, nem pensa nisso: dorme e pronto.

Eu deveria pensar o que fazer na aula de amanhã. Espera-me mais um dia cheio. Será o último de formação. Em principio, voltamos para Bissau na quarta-feira, mas já há quem proponha quinta. Habituámo-nos a Gabú. Será difícil, a partida. Apesar de as dimensões não terem comparação, também já sentimos o carinho da população: já nos chamam pelo nome, quando passamos, já não somos só os “braaancos pelélé” de melodia arrastada, já não se riem de nós no mercado, quando fazemos negócios pelélé, já se riem menos de nós por andarmos à chuva… habituam-se a tudo, tal como nós:

Já não são tão insuportáveis os cheiros, já não são disparatados os hábitos, já paramos em poças de água escura e lamacenta para lavar os pés e achamos que ficam, de facto, limpos, já não nos espanta a fealdade dos abutres, já são menos longos os dias… já ficávamos…

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