segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Domingo-mercado, 26 de Agosto de 2007


É domingo.

Acordei às 7 da manhã e, como já estava farta de ouvir a água do chuveiro a cair, levantei-me. Atravessei a rua, fui ao “pó di terra” marcar a hora do pequeno-almoço de domingo (que alguém encasquetou, com imensa graça, que seria às 8:30 DE DOMINGO!!!!!), e, depois de uma pausa frustrada para tirar uma foto à sede do PAIGC, fui comprar papel higiénico. “1000 francs”, dizem eles, como se não houvesse outro preço para o “branco pelélé”.

Acabaram-se os mimos de Béli. Aqui, ninguém nos virá despertar de manhã. Só, talvez, o gerador do governador, que veio, em má hora, substituir o coaxar nocturno das rãs de Béli.

A cidade é muito movimentada, à noite. Ontem estávamos muito cansados da viagem e não apreciámos muito, mas dá para perceber que, pelo menos ao fim-de-semana, a discoteca está aberta “até às quinhentas”, como diria o Bucari.

O Bucari é o jovem de Béli que mora em Gabú e que aproveitou a nossa boleia para vir. Quando virmos o Bucari, vamos sentir a alegria de quem encontra um amigo, quando se está longe de tudo.

Estou a escrever à varanda de uma das casas de hóspedes da presidência. Em frente fica a casa do Governador e, ao lado, a casa que aloja o primeiro-ministro e o próprio Nino, quando passam por cá…

Há um sujeito de gorro de lã a passear-se no quintal. Como considero que um gorro de lã, aqui, só pode caber na cabeça de um louco ou de um soldado… Acho que temos guarda-nocturno e diurno, pelos vistos…

Ontem, não escrevi porque não tive tempo. Aliás, já se percebe a mistura do Ocidente e isso… já me desagrada.

Tivemos uma reunião, que era para ser informal, mas que acabou por ser formal e longa e chata. Muito chata. Passo a explicar: depois de termos saído de Béli com 3 horas de atraso, feito os regulares 80 km em 4 horas (tempo record), chegámos todos moidinhos, e tão sujos que o pó caía quando mexíamos as pálpebras, pois... fomos nestas figuras almoçar e reunir com os ilustríssimos representantes da FNUAP e do Instituto da Juventude, que diz que teremos que ir à ministra…

Só não percebo porque é que ontem, eu, do alto dos meus chinelos rotos, não achei que estavam todos a gozar comigo e não fiz uma comédia em três actos, a despachar, para podermos todos voltar para Béli, na paz do Senhor (ou isso)!

Os meus companheiros dormem. O despertador toca dentro de 15 minutos. Eu tenho fome. o motor do gerador não se cala, e nós sem luz em casa. Isto não está a correr grande coisa. Mas vai correr. Tenho a certeza! E é bom, muito bom, ouvir a voz da mamã e do papá!... Valha-nos isso!

Passaotempopassaotempopassatempo

Estou absolutamente rendida. Este país e este povo é, de longe, o melhor que eu já conheci.

É verdade que Béli é imbatível, que não haverá mais do que uma mancheia de lugares assim no mundo. Sabíamos que Gabú seria muito difícil, depois das 3 últimas semanas… sabemos que o primeiro contacto é sempre difícil e eu, pessoalmente, nunca pensei que os humores e os amores se alterassem com tamanha facilidade. O que quero dizer é que o medo, a apreensão com que despertei hoje, já se dissiparam. Agora, sinto uma vontade imensa de trabalhar, de conhecer os novos formandos… de ajudar este povo a escorraçar os abutres que os cercam, que os comem. Ajudá-los a perceber que há outros pássaros, bem mais simples, que merecem comungar das suas vidas exuberantes e belas. E que, sobretudo, todos eles merecem viver muito mais e muito melhor.

Passaotempopassaotempopassatempo

Paguei para ver um jogo de futebol numa televisão. Quase consegui ver tudo, mas sofri um bocado lá para o fim… O Porto ganhou e o público não ficou lá muito satisfeito. Antes de entrar comi uma espiga assada, o que foi bomJ!

Entretanto, já jantámos no “pó di terra” e eu já estou a pedir cama.

Continuamos sem luz. Já não devemos ter… mas o ritmo aqui é outro, ainda há alguma hipótese. A ver vamos.

Hoje pus-me com saudades de quem não devia…

Boa noite!

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