segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Agosto, 31, 2007


Já vai longo o dia. Não vi nenhum avião a sobrevoar o espaço Bissau, por isso é provável que a Carina ainda esteja no aeroporto. Fiquei bastante apreensiva com a possibilidade de ela ficar lá sozinha. Já passaram 2 horas desde a hora do voo, mas quando a deixámos, o avião ainda não tinha aterrado. Aterrada deve estar ela, a esta hora. Ou não. Aqui tudo corre sempre muito bem ou muito mal. Mas “ca tem problema”, para qualquer guineense que se preze, essa é a frase de Ordem.

Estive a escrever um texto para enviar para o ISU, mas não estou muito segura, se fiz o que se pretendia… A ver vamos. Vou ao net café e talvez encontre outros seres humanos da minha vida.

(Passou muito tempo).

É madrugada. Fui ao X Club com o “pequenote”. Vimos manga di pelélé. Vou dormir muito. Espero!

Boa noite, Bissau!

Agosto, 30


Hoje quase não escrevia “hoje”.

Passa pouco das onze da noite. Estamos em Bissau na (agora quase excêntrica) pensão da avó Berta, que é muito parecida com a avó Emília e só hoje é que eu percebi porque me parecia tão familiar.

Foi muito estranho ter acedido ao e-mail… tinha apenas 3 mensagens para mim. Ou seja, de pessoas minhas, que queriam saber de mim…

Respondi a P. e enviei um mail para todos. Não sei se o último foi enviado.

Bissau é uma cidade muito desinteressante, como têm sido todos os lugares onde chegamos, mas depois tudo se transforma. Aqui, as pessoas valem, de facto, muito mais.

Acho que se o nosso trabalho fosse aqui, ou mesmo o tempo todo em Gabú, a relação entre as pessoas do grupo teria sido mais difícil. Eu, pelo menos, tenho menos paciência para determinadas atitudes e comportamentos… Mas isso sou eu. De qualquer forma, confirmo que a proximidade com as coisas idênticas à ocidentalidade quebram muito do encanto, da paz e da tranquilidade que me têm feito extraordinariamente bem.

A benjamim Carina parte amanhã. Acho que não se dá conta do mundo de transformações que se operaram nela… talvez só venha a descobrir daqui por uns meses. Fico contente por fazer parte desse mundo individual (dela), que se cresce e expande e emancipa.

Teremos todos saudades, certamente. Será difícil conceber as refeições sem a sua presença, os seus flashes histriónicos (ou melhor, os da sua máquina), sem a sua inteligência a emergir por frases inocentes e vastas, sem o seu sorriso perdido, sem os seus ataques de riso…

Espero que continue a descobrir-se com essa graça e simplicidade, na sua nova etapa na Finlândia.

Boa noite, Carina!

(Parabéns, N.! tentei ligar-te, mas não atendeste).

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Quarta-feira, 29 de Agosto



A lâmpada da casa do guarda ilumina-se a si própria no calor da tarde. Hoje ainda não choveu, mas o vento sopra e traz-me sons da cidade. Devem ser 5 da tarde porque oiço o som vindo da mesquita que chama para a oração. Acho. Não me ocorre que seja outra coisa. Não consigo distinguir o que farão as outras vozes que se lhe sobrepõem. São, provavelmente, as vozes da azáfama do mercado.
Os pássaros simples de Gabú chamam-se abutres e devem ser eles que se ouvem nos céus. É muito estranho passar por uma família de abutres na rua, ou sentir o seu olhar implacável e vigilante ao cimo de um telhado.
A nível, perdão, Aníbal de pássaros já preferia outro. Mas como tudo faz sentido naquilo que a natureza produz… é óbvio que Gabú é uma lixeira a céu aberto e que, os ditos bichos, vulgo bichesa (nova designação do Hugo) sabem onde poisam o bico, literalmente…
Pessoa que nunca tenha posto o pé nesta terra (ou seja o universo de gente que eu conheço) há-de tardar em perceber o encanto de um lugar designado por “lixeira a céu aberto”. E se eu acrescentar que, hoje de manhã, duas das minhas companheiras foram assaltadas, ou melhor, “vítimas de furto”, em plena luz do dia e envolvidas de muita paz; esse encanto será ainda menos compreensível. Mas olhem que tem: esta cidade tem muito encanto.
E se eu disser que estou hospedada na casa onde o próprio Nino dorme, quando cá se desloca (dizem eles) e que tem um balde em vez de autoclismo, um chuveiro que nunca chega a fechar e que essa casa está toda cagada…
Esta cidade tem muito encanto.
E que eu estou a despertar de uma sesta, depois da aventura da formação, onde os 26 alunos de ontem se transformaram, como que por magia, em 40, o que, efectivamente, é extenuante numa sala de aula sem isolamento de som do exterior, carregada de pregões e vozes simples e passos apressados e brincadeiras de crianças e tudo. Tudo menos silêncio, um tal de fenómeno necessário quando queremos que uma plateia assim só nos oiça a nós.
Esta cidade tem muito encanto.
Ao cair da noite também.
Tem muito encanto.
Quando saí de casa para passear no mercado e fazer a alegria dos poucos comerciantes que conseguiram enganar, mais uma vez, o “branco pelélé”, tive, tivemos (eu e a Ana) o segundo susto do dia: um grupo de jovens rapazes, que celebravam o ritual do fanado, cercou-nos de forma ameaçadora, quando a Ana tirou uma foto… Confesso que o som de catanas a dois palmos do meu nariz não foi das coisas mais simpáticas que já me aconteceu.
Mas passou.
Tudo passa rapidamente, mas a intensidade de cada momento, de cada experiência, de cada gesto, de cada imagem… há-de ficar para sempre inscrita na arca de emoções de cada um de nós.
Amanhã é dia de viagem e de véspera da despedida da Carina. Aprecio cada vez menos essa coisa do “adeus”, mesmo que seja apenas um “até já”.
O Bucari vai connosco a Bissau e, com muita sorte, aos Bijagós, em bora as esperanças de que exista um barco disponível sejam cada vez mais reduzidas… Hoje jantou connosco no “pó di terra” (lá mastigou sob protestos o arroz “perfumado”), mas antes ainda tivemos o ritual Warga, pela primeira vez todos juntos. O warga bebe-se bem, mas o mais interessante é todo o ritual. Trata-se de uma espécie de chã muito amargo, que chega a ficar espesso, muito espesso, de tanto açúcar que leva! No total, entre ferver, misturar e beber é cerca de uma hora muito zen e muito bem passada.
Ele foi-se embora. Estivemos a ver fotos de Béli no computador e eu vim para esta maravilhosa varanda, que se abre para o portão (aberto) da casa do governador, e que me há-de sempre fazer lembrar toda a imensidão paisagística de África. Terei seguramente muitas saudades deste espaço, desta nova luz de vela que me acompanha a escrita e, até, do toque da mão a roçar este caderno, da sombra desalinhada da luz de vela, do cantar dos grilos e do (já) longínquo coaxar das rãs de Béli.
Passou quase um mês. Apenas. Pareceram décadas. Décadas intensas, que me apetece prolongar…
Adormece, Gabú!

Agosto, 28, terça-feira



Chove muito nesta cidade.

Vou passear a ver se apanho a terceira molha em três dias.

E lá consegui a tal da molha. Não teve o sabor da primeira porque não terá sido tão inusitada, mas soube bem.

Hoje não estou com muita paciência para isto. Mas foi bem divertida a nossa antepenúltima reunião!

Tenho também a dizer que há aí um menino que me ama muito (e à Cátia também), mas com todo o respeito (e a uma de cada vez)… Aguardamos todos ansiosos novas declarações…

Amanhece, Gabú!

Agosto, 27, Binta + Safiato




À hora a que escrevo já não me lembro de metade do dia. É impossível tomar nota deste quotidiano. É impensável fazê-lo de forma completa.

Aqui não recebemos visitas de crianças. Só os adultos vão passando para “djumbaj”.

O nosso guarda, o Malu (acho!) é a pessoa mais delicada que conheci em toda a Guiné. Não fala português e isso parece entristecê-lo muito. Veio falar comigo para lhe dar explicações, com a convicção firme de que conseguiria fazê-lo num ou dois dias…

O Bucari vai connosco para Bissau no fim-de-semana. Levar-nos-á a ver a menina mais linda de Béli, a Binta, que é, tal como a Safi, sua sobrinha. O grupo está a envolver-se de forma muito pessoal com as pessoas. É inevitável fazê-lo, eu sei… Mas assim, a despedida será um sufoco, como foi a de Béli. A perspectiva e o medo de não voltar apertam muito o peito.

Hoje ao almoço, decidimos formar uma ONG. O ISU é um estímulo para fazer mais, de forma mais elaborada, mais pensada, mais centrada nas pessoas de cá, no seu bem-estar… Sinto-me mais capaz. Sinto-me mais solidária. Menos egoísta…

E agora, estou na cama com a Carina, que não há meio de se calar… Por isso, vou parar por aqui para não baralhar muito as ideias e o discurso.

Entretanto, vamos ver se vamos jantar.

Fomos. E ficámos retidos imenso tempo por causa da chuva. Depois, lá viemos com tranquilidade, uns calçados outros descalços a chafurdar nas poças de água e lama e a fugir dos rios…

Estamos todos muito bem. Bem-dispostos, bem uns com os outros, bem cada um consigo (pelo menos, assim parece). Nem nas melhores perspectivas isto poderia estar a correr tão bem.

Acorda bem, Gabú!

(É só para acrescentar uma observação, sobre algo que me tem aborrecido: é para aí a quinta tentativa de ler o W. Faulkner e não consigo. Acho uma seca brutal! Ainda não li nenhum livro desde que cheguei aqui e não é, seguramente, por falta de tempo. Terá sido das escolhas?)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Parabéns, Médica da Água!

Domingo-mercado, 26 de Agosto de 2007


É domingo.

Acordei às 7 da manhã e, como já estava farta de ouvir a água do chuveiro a cair, levantei-me. Atravessei a rua, fui ao “pó di terra” marcar a hora do pequeno-almoço de domingo (que alguém encasquetou, com imensa graça, que seria às 8:30 DE DOMINGO!!!!!), e, depois de uma pausa frustrada para tirar uma foto à sede do PAIGC, fui comprar papel higiénico. “1000 francs”, dizem eles, como se não houvesse outro preço para o “branco pelélé”.

Acabaram-se os mimos de Béli. Aqui, ninguém nos virá despertar de manhã. Só, talvez, o gerador do governador, que veio, em má hora, substituir o coaxar nocturno das rãs de Béli.

A cidade é muito movimentada, à noite. Ontem estávamos muito cansados da viagem e não apreciámos muito, mas dá para perceber que, pelo menos ao fim-de-semana, a discoteca está aberta “até às quinhentas”, como diria o Bucari.

O Bucari é o jovem de Béli que mora em Gabú e que aproveitou a nossa boleia para vir. Quando virmos o Bucari, vamos sentir a alegria de quem encontra um amigo, quando se está longe de tudo.

Estou a escrever à varanda de uma das casas de hóspedes da presidência. Em frente fica a casa do Governador e, ao lado, a casa que aloja o primeiro-ministro e o próprio Nino, quando passam por cá…

Há um sujeito de gorro de lã a passear-se no quintal. Como considero que um gorro de lã, aqui, só pode caber na cabeça de um louco ou de um soldado… Acho que temos guarda-nocturno e diurno, pelos vistos…

Ontem, não escrevi porque não tive tempo. Aliás, já se percebe a mistura do Ocidente e isso… já me desagrada.

Tivemos uma reunião, que era para ser informal, mas que acabou por ser formal e longa e chata. Muito chata. Passo a explicar: depois de termos saído de Béli com 3 horas de atraso, feito os regulares 80 km em 4 horas (tempo record), chegámos todos moidinhos, e tão sujos que o pó caía quando mexíamos as pálpebras, pois... fomos nestas figuras almoçar e reunir com os ilustríssimos representantes da FNUAP e do Instituto da Juventude, que diz que teremos que ir à ministra…

Só não percebo porque é que ontem, eu, do alto dos meus chinelos rotos, não achei que estavam todos a gozar comigo e não fiz uma comédia em três actos, a despachar, para podermos todos voltar para Béli, na paz do Senhor (ou isso)!

Os meus companheiros dormem. O despertador toca dentro de 15 minutos. Eu tenho fome. o motor do gerador não se cala, e nós sem luz em casa. Isto não está a correr grande coisa. Mas vai correr. Tenho a certeza! E é bom, muito bom, ouvir a voz da mamã e do papá!... Valha-nos isso!

Passaotempopassaotempopassatempo

Estou absolutamente rendida. Este país e este povo é, de longe, o melhor que eu já conheci.

É verdade que Béli é imbatível, que não haverá mais do que uma mancheia de lugares assim no mundo. Sabíamos que Gabú seria muito difícil, depois das 3 últimas semanas… sabemos que o primeiro contacto é sempre difícil e eu, pessoalmente, nunca pensei que os humores e os amores se alterassem com tamanha facilidade. O que quero dizer é que o medo, a apreensão com que despertei hoje, já se dissiparam. Agora, sinto uma vontade imensa de trabalhar, de conhecer os novos formandos… de ajudar este povo a escorraçar os abutres que os cercam, que os comem. Ajudá-los a perceber que há outros pássaros, bem mais simples, que merecem comungar das suas vidas exuberantes e belas. E que, sobretudo, todos eles merecem viver muito mais e muito melhor.

Passaotempopassaotempopassatempo

Paguei para ver um jogo de futebol numa televisão. Quase consegui ver tudo, mas sofri um bocado lá para o fim… O Porto ganhou e o público não ficou lá muito satisfeito. Antes de entrar comi uma espiga assada, o que foi bomJ!

Entretanto, já jantámos no “pó di terra” e eu já estou a pedir cama.

Continuamos sem luz. Já não devemos ter… mas o ritmo aqui é outro, ainda há alguma hipótese. A ver vamos.

Hoje pus-me com saudades de quem não devia…

Boa noite!

Agosto,25


Olá, Gabú!

Olá, Gabú! Olá, mamã!

Até aqui está tudo bem…. Agora?! – piorou, seguramente, resta saber quanto…

Pássaro simples com voz nas mãos


Não fui capaz de escrever nada neste dia.
Na data de 24 de Agosto encontrei um vergonhoso adeus a Béli, neste caderno, que não é este.
Tão pouco.
Tão pobre.
Tão triste.
Tão baixo voo projectaria este pássaro simples, que nos acompanhou sempre nesta manhã, tarde, noite,madrugada,manhã, dia, manhã,tarde, dia, noite... nesta nova Estação.

Bom dia, Bucari!
Abre as mãos sobre Béli, de novo, e fala, meu "pássaro simples"!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Agosto, 23, 5ª-feira



Passa das seis da tarde. A nossa boleia de volta já chegou. O nosso suor cheira a contradição e corre e bate, como um órgão interno.

Nos momentos em que fecho os olhos e entra o automatismo, vejo todos os rostos saudosos em movimento. O mundo deve ter andado, enquanto nos dedicámos a este intervalo desse mesmo mundo. Não são saudades. Saudades são aquelas que já sinto de Béli… É preocupação, excitação, ansiedade, vontade de ouvir as vozes de sempre e saber que têm a serenidade de sempre. Um minuto há-de bastar…

Hoje voltei a ter um início de dia irritado. Voltei a ser pouco simpática. Mas passa bem mais rápido que o tempo da picada do mosquito. Garanto.

No momento em que escrevo, duas meninas conversam naturalmente, sentadas, à mesa onde trabalho. São a Safiato e a Mariama. Apenas mais dois exemplos que me apetece acompanhar para sempre. São todos tão inteligentes, tão perspicazes, tão atentos, que seria fácil escancarar-lhes com a crueza do resto do mundo, pouco a pouco, até que percebessem a riqueza e o encanto, a magia deste lugar e o quisessem preservar para sempre, tendo a consciência tranquila sobre esse desejo.

(Delírios de branco pelélé).

E agora, vou falar com o Djulde e o Atátá, que devem estar muito cansados da viagem.

Não fui falar com eles. Estive a fazer e a imprimir certificados. Temos que aproveitar o gerador para imprimir a papelada toda.

Eu, para ser franca, não sei o que hei-de fazer neste momento. Porque está toda a gente a afiambrar-se do pc e da impressora. Talvez vá arrumar esta casa “puzzle” em que temos vivido e convivido nas últimas 3 semanas… Prova (quase) superada!

A casa, melhor dizendo: o pátio da casa foi invadido por crianças, outra vez.

Hoje tivemos gerador até à meia-noite e, mesmo assim, não fizemos tudo. Eu também não compus o “puzzle”.

E pronto. Hoje não me apetece dizer mais nada. Só queria voltar ao rio amanhã… e depois e depois e depois e depois e de…

Boa noite, minha Béli!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007


Voltou a chuva. São algumas horas pela tarde dentro. O grupo tirou a malha e lançou-se ao tricot… As nossas gargalhadas misturam-se com a queda (simples) da chuva.

A Ana, vulgo, “médica da água” está a pôr soro fisiológico nos ouvidos da “enfermeira da água”. Incrível a capacidade que temos de fazer curtas-metragens com coisas tão insignificantes…

Acho que fiz a sesta mais longa da minha vida! Sonhei com casas de dimensões tão grandes, que rondam o disparate e a ostentação! Sonhei com as pessoas quase todas, conversei muito com toda a gente.

Levantei-me com um vazio estranho. Queimei o lixo e pensei que era a última vez. Ouvi música ao longe. Vozes de pessoas, principalmente de crianças, a encherem-me o pátio com a agitação festiva. A acústica de África a deixar segredos mal guardados nos interiores das casas…

Portas que se abrem e fecham já sem “olás”. Os nossos rostos a deixarem de nos surpreender. O cheiro incontornável das despedidas sine die para voltar.

Vou ver como estamos de água.

E estávamos muito mal. Já passa da meia-noite e acabámos agora de encher a última chaleira. Temos que esperar mais 40 minutos.

Hoje houve um ensaio para a festa de sexta-feira, a nossa despedida de Béli. Festa significa música e dança. Mais nada. E fazem-se milagres de convivência sã com estes motivos.

Sinto-me um pouco porquita porque hoje não tomei banho. Mandei as duas toalhas para lavar, sem perceber e, por isso, não tenho como me limpar. (Pobre Carina!).

Amanhã devem chegar dois representantes da DIVUTEC para nos levarem para Gabú, no sábado. Estamos todos a clamar por garrafas de água e notícias de casa! Penso que é unânime que, se não fosse por estas razões, todos ficaríamos de bom grado aqui, o resto do tempo.

Vou ver como está o fogareiro e talvez não volte cá hoje. Mas com as minhas insónias nocturnas… nunca se sabe…

Boa noite, Béli!


Afinal ainda não acabei. Acho que estou a ficar sem cuecas e, por absurdo que pareça, achei que este comentário devia ficar bem aqui. Não percebo por que razão é que a nossa roupa leva tanto tempo a secar e a da lavadeira chega aqui a ferver e quase engomada. Andam-nos a sonegar informação, os gajos!

E como se não bastasse, a caneta está a acabar. Irra que é tudo à míngua!

(Menos as rãs, menos os mosquitos, menos os bichos todos do mato, menos as pessoas, menos os sorrisos das crianças, menos o encantamento diário, menos as fotos, menos os sorrisos das crianças, menos os sorrisos das matronas, menos os sorrisos dos professores, menos os sorrisos dos ASB, menos os sorrisos das mulheres e dos homens grandes, menos os sorrisos, menos os sorrisos, menos os sorrisos, menos).

Boa noite(2x), Béli!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Terça-feira, 21 de Agosto


É quase só para dizer que este dia também aconteceu e que todos os relatos soarão a banalidades. Pelo menos, para mim.

Hoje choveu durante 4 horas consecutivamente. Está menos calor, bastante menos que nos dias anteriores.

É oficial: eu também transpiro pelo queixo, como os demais! É a bênção do NIDO, leite em pó para crianças e mulheres em menopausa precoce!

Estou a ouvir um dos discos que o D.S me deixou e isso está a divertir-me imenso. As imagens de muitos momentos (também) bons passam-me caleidoscopicamente, enquanto a noite africana vai mergulhando no coaxar febril das rãs.

Está tudo sossegado. Toda a gente conforme com as inevitabilidades de Béli e com a conflituosa convivência com os mosquitos. Os meus companheiros lêem, talvez para espantar as vozes da memória de casa. Eu escrevo, como, de resto, me compete.

Béli está por um fio com a nossa presença. Voltar será difícil. Todos temos consciência disso. Mas não é impossível. Não é impossível. Não é impossível… Todos queremos acreditar nisso.

Todos temos consciência do trabalho que falta fazer. Todos temos consciência da importância da nossa contribuição. E todos temos…

FOME!!!!!!! e

SEDE!!!!!!!

A água hoje estava castanha e lá tivemos que nos fazer ao último compal de pêssego, que chegou sexta-feira no toca-toca.

Vou só deixar registado o meu desencanto com o trabalho (ou a falta de) com os jovens. De resto, tudo a correr.

Boa noite, Béli!

vendedora de banana guineense em labuta árdua e pregões impronunciáveis...

Segunda-feira, Agosto, 20


Passa das 5 em ponto da tarde.

Voltei ao Djumberé. Estou deitada em cima da mesa a ouvir o som raro do vento. Quando começar a chover (daqui por mais ou menos 10 minutos) voltarei a sentir que os deuses abençoam África, de vez em quando.

Hoje transpirei pela primeira vez. Estava mesmo muito calor! Fomos ao rio e voltámos.

Hoje alterei o tom de voz, pela primeira vez. Espero não voltar a fazê-lo.

O Hugo fez um corte no dedo do pé e a Ana anda de pés ligados com gaze, por causa das picadas de mosquito. A Carina está a ficar surda e a Cátia vai-se mantendo mais ou menos “zen”. Eu estou bem: parece que estou com varicela, por causa das picadas dos mosquitos, mas estou bem. Muito bem, até. Mas conseguirei ficar melhor, se dormir a sesta (a que, ainda, não tive direito hoje), e tomar banho, antes disso.

Agora, vou-me pôr decente para falar com aquele gajo do Panamá.

Que tem bolas de pingue-pongue e de vólei, que precisa de rede… tirou as medidas à mesa do Djumberé e está a pensar pôr-lhe umas redes… e blá-blá-blá…

Pasatempopassaotempopassatempo

Tenho que acertar contas com o artista capofónico cá do pedaço. Paguei-lhe para me fazer umas “poucheiras” e até agora ainda só me deu 2 das 5 que lhe pedi. Parece que bebe bastante mais do que trabalha.

Afinal não dormi. Agora também vou ver se me mantenho por aqui a trabalhar e isso, a ver se consigo dormir cedo, que amanhã tenho formação de manhã e à tarde.

Estava a ler à luz da lanterna, no meu quarto, quando o Gto (que afinal e, segundo o próprio, se escreve assim e não como tenho andado a inventar) entrou e perguntou:

- Quem faz jantar, hoje?

A partir daqui, deixei de ouvir a conversa de forma suficientemente perceptível, até porque estou (também eu) a ficar surda, mas ouvi repetidas vezes o meu nome associado ao Ministério das Finanaças.

O Gto é muito esperto… e tem-se aproveitado à grande da nossa presença aqui. Pede dinheiro por tudo e por nada, alegando que é para “mulher do mango, mulher da roupa, mulher da banana, mulher da água.. Gto procura calda, procura gazela…” etc. Gto é esperto é muito esperto. E pensa que nos leva à certa (e leva)! Hoje berrei com ele. Senti-me mal, mas acho que lhe faz muito bem. Até vou ver se me pede dinheiro ao jantar…

Fase pós-jantar:

Trabalho árduo. Estou a tentar imprimir uma cópia para cada professor, do conto que têm estado a ler. Pediram-me muito e eu estou a fazer os possíveis! Quer dizer, eu, a Carina e a impressora lerda.

A Cátia resolveu tomar-se de ares de escrita e está à minha frente a escrever cheia de vontade (olha qu’isto!).

E pronto, vou dormir, a ver se me aguento!

Boa noite!

Domingo, 19 de Agosto



O calor aperta, pelo segundo dia consecutivo sem chuva. Nem quero imaginar como será esta terra em tempo de seca! Estou no Djumberé, que é o lugar específico para se conversar. A palavra deriva do verbo “djumbaj”, que quer dizer “conversar”. Tudo aqui está organizado para o sentido comunitário e este local é dos meus preferidos, pelo simples facto de existir, pelo simples facto de se ter criado um espaço para a conversa. O Djumberé é dos locais mais frescos da tabamka. Trata-se de um coberto de colmo, redondo, como as casas, mas aberto, desde a cobertura até meio caminho do chão. Cá dentro, há uma mesa gigante, rectangular, igual àquela que nos levaram para a nossa sala para podermos trabalhar.

Os mosquitos têm tido dias de glória! As minhas pernas estão povoadas dos seus vestígios. Convém não pensar muito nas sequelas da coisa. O repelente está quase no fim e também não me parece de grande ajuda. O insecticida também já acabou. A nossa casa está prestes a ser tomada por insectos.

As contrariedades começam a gerar alguma indisposição no grupo. A isso juntam-se as inevitáveis saudades de casa. Eu, por exemplo, acordei há pouco mais de uma hora e já me irritei por duas vezes. Mas não é nada de grave, se percebermos que tudo está muito empolado e inchado pelo calor. Vou ler um pouco, a ver se passa…

Passou.

Entretanto, tive uma conversa com o Gheto em que lhe disse que tinha dois maridos e lhe expliquei o conceito de divórcio: “branco assina para casar, cansa, e volta a assinar para descasar”. Ele percebeu, mas achou muito estranho. Só ria.

Estamos a conversar com o Bucari, o jovem mais aberto da comunidade. Quando formos para Gabú, ele também vai. E irá trabalhar connosco. É um belo elemento. Muito moderado. Tam 26 anos e ainda não tem filhos nem mulher. Diz que gosta mais de Gabú do que de Béli.

Estamos todos a implorar rio, mas é cedo e temos água a ferver… Há que esperar, portanto…

Já volto a seguir à Fanta…

Ela também vai escrever e eu não vou perceber…

Fanta


As cantosrame rsalamó amals unlaréo se per ceber uns que tu do esti une?

M au goi suru ta garu?

diário simples


Entretanto, estive à conversa com o Mamadu.

Fonda-huuwa – pensar, planear, realizar – este é o nome do projecto dos alemães… (isto não era suposto ficar aqui, ma sficou).

Sinto-me mais leve. Apesar de me terem prometido que o produto que passaram nas redes mosquiteiras era, efectivamente, eficaz, e que, desta é que era de vez, ficaríamos em território só nosso, sem intrusos e… BALELAS!!!!! Ainda agora matei um, neste caderninho. Não deixei marcas, é certo… Estou mesmo farta disto!

“Só há esse bocadinho de vela? – É triste, mas só”. Apeteceu-me transcrever este pequeno diálogo, antes de me fazer à minha parte favorita da escrita, a que ocorre no fim da noite, no fim da luz do gerador, no início da luz de vela… Não poderei fazer muito o dedo ao gosto, digo (como se faz em actas), o gosto ao dedo. Disse.

As meninas ainda estão todas acordadas, mas o rapaz já se recolheu. Já é um hábito, diz que já volta e pronto, fica como um patinho!

Acabo de acabar com o nosso fenistil genérico, que é muito melhor que o próprio!

As rãs voltaram. Choveu um bocadito e foi suficiente para elas se apoderarem das poças de água e cantarem, numa sinfonia a que já todos nos habituámos. Eu até já disse e estou em crer (já há muito que não usava esta expressão), que não conseguirei adormecer sem esse som. Até gravava, mas rãs há muitas, como chapéus e todos considerariam um perfeito disparate… De mais a mais, só cá estando é que se percebe o encanto da coisa.

A imagem que me passou na cabeça, de repente, foi a das pessoas que vimos banharem-se nessas mesmas poças de lama, na viagem para Béli…

E pronto, estou a tentar que este diário se torne menos narrativo, por isso, vou fazer outro desenho.

Boa noite, simplesmente, Béli Simples!

Agosto, 18



Saída circular em torno do Sector redondo de Boé. Boé é histórico para a Guiné-Bissau. Aqui foi assinada a independência, aqui se deu grande parte da guerra colonial e civil. Ali, entre as colinas cerradas de Boé, há-de ter-se forjado esta espécie de país. Nada, no entanto, existe a assinalar essa importância. A tabanka (Lugajole) parece fantasma, mas tem umas instalações de um projecto da Cooperação italiana, que passou por cá há mais de dez anos. O centro de saúde tem melhor aspecto que o de Béli 8pelo menos por fora), mas o enfermeiro é o mesmo, o Madi, Delegado de Saúde, que nos queria levar antibióticos, mas nós não fomos nessa.

O passeio durou pouco mais de duas horas, mas foi muito cansativo. Está muito calor, hoje e, á hora a que escrevo, já nos fomos todos refrescar ao rio de Béli.

Havia uma festa hoje à noite, que acabou por não acontecer por alguma razão que continua a escapar-me. São muitas as coisas que me escapam, aqui. Talvez também não me apeteça fazer esforços adicionais. O momento é de catarse inversa. Acontece em silêncio, longe e desprevenida, essa catarse. O facto de não perceber nada de “fula” e muito pouco do pouco crioulo que aqui se fala não ajuda no processo de descodificação dos momentos mais sinuosos e imprecisos.

O Gheto anda um pouco alheado e talvez incomodado com a nossa presença. Acho que temos uma atitude demasiado participativa para aquilo a que ele está habituado. Mas pode não ser nada disso… Hoje trocou umas palavras com a Ana, que eu adorava ter ouvido! Assim, fica só o relato transformado:

A Ana perguntou-lhe, se ele continuaria a viver naquela casa, depois de casado com a sua mulher (a tal criatura, enteada de África, que tem 12 anos), ao que ele respondeu “não”. Ele ficaria ali e ela lá (gesticulou para o cimo da tabanka) e disse que, e passo a citar:”quando precisar de usar mulher, vou lá 5 minutos e volto”.

Ele, o “djimbé” e a sua atitude de artista quase excêntrico não compareceram à festa (ou ao plano de festa)… Estranho! Só espero que não tenha sido tomado por essa necessidade de usar mulher. Essa ideia incomoda-me mais hoje do que ontem. Incomodar-me-á mais amanhã do que hoje. As coisas que sabia que incomodariam já não ficam camufladas nos sorrisos das crianças. Até esses sorrisos começam a incomodar…

Mais cinco minutos disto e talvez vá dormir. Volto a não ter vontade. A noite passada tive uma insónia… talvez não seja assim tão silenciosa, a catarse… talvez se tenha, apenas, camuflado nos primeiros instantes estonteantes de África. Talvez se consiga prolongar num interior desfeito, por causa disto de se estar a ambientar a África. Talvez não passe nunca deste imenso “talvez”. Penso já no regresso. Talvez seja necessário, afinal. Mas hoje não. Ainda não.

Falta-nos uma semana (ou menos que isso) de Béli. Será veloz. Tenho a certeza de que o tempo vai recomeçar a pregar-nos partidas. Gabú parece-me irrespirável. Não tem rio, tem poucas árvores e mato… mas terá telefone e água engarrafada.

Talvez não se possa ter tudo em todo o lado, ao mesmo tempo. Talvez me contente com tudo o que, por ora, tenho. Tenho uma luz de vela ténue e música. Tenho o silêncio (raro) da noite de Béli. E tenho ainda algumas vontades (ainda) secretas.

Boa noite, Béli!

Agosto, 17



Se não fizesse isto diariamente, já me teria perdido na contagem dos dias, seguramente.

Hoje foi mais um dia de tensão entre mim e mim… e entre nós: eu e os mosquitos. Os mosquitos continuam a ganhar…

Falta uma semana para sair de Béli. Estamos cá há duas semanas, provavelmente as semanas mais longas das nossas vidas. As mais completas e das mais intensas, pelo menos para mim.

Não enviámos e-mails, por alguma razão que me escapa… não nos foi facilitada essa questão. Tínhamos, também, agendado um passeio com o pessoal do projecto dos alemães, mas não vejo carro… parece-me que será mais uma promessa adiada. Estes pequenos entusiasmos ocidentais não nos fazem falta nenhuma. Pelo contrário, só nos põem mal-dispostos.

Hoje vamos jantar grão. Acho que vou fazer um molho mais ou menos verde e volto já.

Pois… o jantar não correu grande coisa, mas estamos todos reunidos numa refeição complementar, daquelas em que rimos todos… menos a Carina. Ainda não se tinha dado.

Agora, vamos aos nossos vizinhos (o casal da alemã e daquele gajo do Panamá) a ver se nos dão água ou isso…

Deram água, sim senhora! E fresquita… Também comemos caju, pela primeira vez, o que é muito estranho, uma vez que estamos na terra que produz o melhor caju que alguma vez provei.

Incrível como só se fala de comida em terra de pobres! O medo da fome e da sede é constante. Não pela falta de resistência, porque poderíamos, em condições normais, ficar sem comer e sobreviver durante uma semana… O problema é que para nos mantermos afastados de doenças, convém que estejamos bem nutridos. É o mínimo, que me parece que já não estamos a cumprir.

Hoje conseguimos uma garrafa de água por pessoa… Deve acabar de manhã, uma vez que vamos dar uma volta pelo Sector.

E depois do primeiro jogo de cartas entre mulheres… Vamos dormir. A minha vontade era ir para a “rua”, mas não me apetece ser picada pelos bichos simpáticos desta terra, principalmente por cobras. E não é por nenhuma razão em especial… é só porque, já que aqui estou com tantas experiências e emoções novas, também gostava de ver se vivo para contar tudo direitinho. Estas e outras que hão-de vir.

Boa noite, Béli!

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