terça-feira, 13 de novembro de 2007

Domingo, 2 de Setembro


O estranho sentimento do regresso a casa parece ter-nos sacudido a todos.
Apesar de parecer a tal lixeira a céu aberto, se tivesse que escolher uma cidade para viver, seria Gabú. Bissau está fora de questão e Bafatá parece ter uma perturbação no ar.
Já reajo menos à paisagem. Já me habituei a tudo: o calor, a chuva intensa, a escuridão das peles, a luz profusa dos olhares, as cores... tudo parece ter-se entranhado em mim naturalmente. Até já sinto o frio que eles dizem sentir, quando chove um pouco mais. A isto chama-se:ADAPTAÇÃO CONCLUÍDA!
Voltar e as voltas da volta começaram hoje a perturbar-me os pensamentos e a substituir o olhar que consome paisagens. Foi assim que percebi que estava a voltar a casa. Já não tive vontade de captar as imagens através da objectiva. Preferi misturar os pensamentos e as decisões nas impressões do que já vejo como meu, meu mundo novo...
Sente-se a falta da Carina. Não parece que falta uma pessoa, parece que somos muito poucos, agora... Ela tem ligado com muita frequência e parece estar a sentir muito a nossa falta.
África marca.
(no parágrafo anterior escrevi 3 (três) vezes a palavra "falta"... hum!)
(...)
Antes de acabar, estive a fazer uma leitura de algumas passagens deste diário e... diverti-me bastante. Penso que à medida que a distância se impuser sobre tudo isto, os sorrisos hão-de vingar também.
Há muita coisa importante que não aparece alinhada neste caderno, mas será impensável não assumir a minha paixão mais recente: a avó Berta. Só não o mencionei antes porque não morro de amores por Bissau...
Sinto a volta endiabrada e as tropelias da infância quando lhe oiço a voz, lhe perscruto o sorriso, lhe beijo o rosto e lhe chamo "avó". Obrigada à agitação do universo, quando nos devolve momentos destes! Deve ser para aprendermos que o que é bom lava-nos a alma para sempre.
O gerador calou-se e eu talvez ponha o sono a obedecer ao silêncio que se instalou. Hoje estou muito cheia de agitações interiores. Vou esmagá-las contra os lençóis!

Boa noite, Gabú!

1 de Setembro


Se é verdade que uma capital é a imagem de um país... a Guiné é desoladora, suja, sem esperança, triste.
Quem foi tão dentro deste país e desta gente como nós, só pode ter vontade de refutar essa ideia.
Há que começar pelo interior de um corpo para se poder amá-lo.
Eu amo o interior da Guiné-Bissau com todas as suas dificuldades, com todas as diferenças. É a partir de Béli, ou talvez de uma das ilhas, ou quiçá desses dois pontos que se poderá edificar este país. É a partir desses lugares que temos vontade de agir.
Aqui, em Bissau, sinto-me impotente. É-me total e absolutamente incompreensível cada rua, cada esquina, cada edifício magoado, morto. É essa incompreensão que se vê em muitos rostos. Mas não há braços que se agitem, nem vozes que se imponham e o caos no lodo vai continuar.
Hoje fomos dar um passeio por entre esse lodo ciatdino e conseguimos desenterrar-nos até à ilha do rei. Sempre se respira uma paz idêntica à de Béli. Sempre dá para acreditar. Sempre se sonha.
Os Jeans levaram-nos a passear. São os nossos novos parceiros no terreno. Uma pequena semente que o grupo quis regar, enquanto cá está. Há muita vontade e muito (tanto!) o que fazer. Estou em polvorosa... Estamos todos, creio.
A Carina já chegou a Portugal. Já ligou. Perdeu a mala,mas há-de recuperá-la.
Isto é hora de descanso, mas eu acho que vou agitar...

Acerca de mim