

É cada vez mais difícil seguir o calendário e as horas.
Hoje acordámos no inferno “África é madrasta”. A frase esmaga-me o pensamento. É muito fácil chegar do paraíso ao inferno. Aqui percebe-se que nem vale a pena mudar de lugar. Paraíso e inferno estão no mesmo espaço. O grupo está um pouco abatido.
África é madrasta.
E tem cobras. Uma delas matou uma jovem a noite passada. Não a conhecíamos e percebemos que seria muito forte a perda, se já lhe soubéssemos o nome, o rosto, o sorriso… A mãe dela ajudou-nos ontem, a carregar água para casa. É uma das matronas, por isso, hoje não houve sessão com as matronas.
África é madrasta.
É preciso ter cuidado com as relações e os laços afectivos que se criam e… quase não há como evitá-los. Há gente aqui que já é a nossa gente. Há gente aqui que não queremos perder, que queremos guardar para sempre na memória, que vamos guardar para sempre. São a nossa gente. É incrível como a lentidão do tempo nos empurra as pessoas para o centro do corpo!
5 em ponto
O dia, hoje, custa mais a passar porque não tive formação. O Amadu adoeceu (de novo), tem paludismo. Há muita gente doente, muita gente com paludismo crónico. Crianças também. Morre-se tanto por aqui. Aqui, onde a morte parece não ter lugar, morre-se mesmo muito.
O Mamadu (sapateiro e professor) vai enriquecer com a nossa passagem breve. Hoje dei-lhe 5000 “franc” CFA para pulseiras. Os meus companheiros contaram-me agora que estava no centro da tabanka perdido de bêbado. Deve ter mulher(es) e filhos, mas optou por apanhar uma piela das grandes com aquela nota grossa (não chega a dez euros).
Percebem-se as coisas que já sabíamos que seriam difíceis de aceitar. Percebem-se melhor, à medida que deixámos de ser estranhos.
Hoje dei uma volta pelas redondezas da tabanka e descobri que, só em Béli, há doze etnias diferentes! Estávamos todos convencidos que só havia “fulas” por cá. Nesse passeio, um rapaz pequenino apontou para mim e para a Ana, como se estivesse a ver o E.T. indicou, com o dedo próprio, a nossa direcção e desatou a chorar. Foi muito engraçado perceber que, afinal, ainda nem todos sabiam da nossa chegada!
Béli é muito maior do que alguma vez me foi dito, talvez tenha mais de um milhar de habitantes. Parece ser uma terra com muitas possibilidades, mas o isolamento viário é um jugo sobre aquilo que aqui cresce em barda (manga, banana e ananás) e não tem capacidade de escoamento. A fruta acaba por se estragar, antes de chegar aonde quer que seja. É difícil perceber porque não produzem legumes. O solo parece dar para tudo, apesar do “bicho” que dizima muitas culturas. Parece-me que é uma questão cultural, de hábitos (ou falta) de alimentação. A questão da nutrição é fundamental e tem que haver uma educação nesse sentido.
Outra coisa muito estranha são os umbigos das crianças: alguns chegam a ter o tamanho de uma laranja! Todos puxados para fora…
Incrível como sorriem! Incrível como vivem em harmonia! Incrível! Béli é incrível!
(Noite)
Este dia está, de facto, muito mais cheio que o normal e até dá tempo para tomar nota dele…
Hoje a Ana fez a massa do jantar e eu comi bué, mas já tenho fome. As meninas estão a ver a “Frida”, a Ana está a ler eo Hugo a trabalhar, tadinho que é um Cristo!
O Gheto vai casar. Foi muito divertido quando ele contou que já tinha os 75.000 “franc” para dar ao pai da noiva… convidou-nos para irmos lá a casa, mas eu não fui. O facto de a “noiva” ter 12 anos e casar este ano…
Enfim, talvez seja melhor não usar muito do pensamento e da razão ocidental a esta altura. Tudo parece no lugar certo, nos sorrisos felizes de toda a gente. Pode manifestar-se um pouco de surpresa, mas não de incredulidade, um pouco de desacordo, mas não de repulsa total…
12 ANOS.
África é madrasta. E escura a esta hora.
Boa noite!