domingo, 30 de setembro de 2007

Agosto, 16


Os sorrisos atingiram a euforia, com o despertar. Os nossos novos vizinhos e amigos do projecto agrícola disponibilizaram-nos o acesso à Internet para envio de e-mails! É como um oásis no meio do deserto, suponho…

Ontem, todos confessaram as saudades de casa e a preocupação com as pessoas… Mesmo a tempo, este contacto!

Estive a preparar a sessão de amanhã e o Soirée ofereceu-me a sua casa para carregar o computador. O que é óptimo, porque só conseguimos trabalhar durante as poucas horas do gerador nocturno e nem todos conseguimos fazer os trabalhos que gostaríamos, da melhor forma.

O grupo de Cooperantes da outra equipa é constituído por gente… muito simpática (digo eu 6 horas depois e com troca de caneta).

Recebemos os nossos vizinhos para jantar. Servimos massa com atum e quase esgotámos o stock de atum. Não havia cadeiras, nem pratos, nem talheres para receber tanta gente, por isso, pedimos-lhes tudo. Quase lhes pedíamos que trouxessem comida também… Não foi necessário, eles trouxeram espetadas e correu tudo muito bem! O Gheto até pôs gravata!

Amanhã e dia de formação e estou um pouco chateada, porque não imprimi um material de que precisava… enfim, lá terei que improvisar, como sempre!

Os mosquitos voltaram a dar-se a banquetes. E eu vou dormir.

Boa noite!

15 de Agosto


Há cerca de dez minutos que o céu voltou a rasgar-se sobre nós. Desta vez há vento.

Está escuro. Muito escuro.

Passaram mais de vinte minutos de chuva. Já acordou toda a gente. As pessoas passeiam-se normalmente e de bicicleta. Vi, pela primeira vez, um guarda-chuva em África e tive a sensação que a pessoa o ostentava com vaidade no pátio da sua própria casa.

Confirma-se – tenho mesmo o vício da escrita. Dou meia volta, desenho movimentos circulares sobre mim própria e, como não tenho vontade para outras coisas, volto a sentar-me, a abrir o caderno e a escrever, como se me sentasse para fumar um cigarro. Os meus companheiros acham que eu escrevo demais (enfim, nem todos). Parece-me que esta é a minha medida: escrever ao ritmo da própria respiração, à luz de vela, sob olhares que passam e parecem reconhecer-me. Sem o movimento das esplanadas, sem o conforto da Europa… Só eu, esta vontade, a chuva e África inteira a ter-me mão nos pés.

Passei uma noite muito má. Acordava com dores de estômago agudíssimas e já com lágrimas. Estou assim desde ontem (antes do jantar). Não sei se foi do doce de manga, que a Ana fez, ou se serão efeitos secundários da profilaxia da malária. Sei que dói. Lembro-me desta dor de quando era criança e comia a fruta verde. Tinha uma barriga enorme (como a das crianças daqui, que comem manga verde a toda a hora), e ia a correr enfiá-la entre as mãos da minha avó para que me massajasse. Que bom que seria ter essas mãos frias e magras a esfregarem-me esta dor, como dantes! Que bom que é poder ter esta lembrança, enquanto a dor se atenua e a chuva escorre do céu exausto e se ouve, lá fora, o correr alinhado dos regos de água acabados de formar.

12 dias de verborreia e um de diarreia. Ganha a última, que me parece mais forte. Finalmente, eu! Já era de esperar. Agora, um pouco de medo, muita água com cinza e muita capacidade de sofrimento… Pronto, vou ali.

E voltei à cama, umas horas depois. Estou um pouco indisposta e muito cansada. Não há água para beber e isso preocupa-me. Já há três dias que não temos água fria. Bebemos chã ou água morna, a saber a cinza, porque é aquecida no fogareiro ou no chão da rua…

Jean


Tivemos uma visita de um guineense muito interessante. Muito conversador e muito ávido de contar toda a cultura do seu país. Percebeu que não conseguiria. Foi embora, mas vamos ver-nos por aí, seguramente.

Aqui percebo melhor os panteístas e talvez me transforme numa… O Jean (a tal visita) parece-me um desses panteístas utópicos e sonhadores, apesar de muito consciente, também. Morou em Aveiro 10 anos e é uma longa-metragem sobre a Guiné, para quem o ouve.

Obrigada, Jean!

Boa noite, África!

Agosto, 14


De hoje a um mês voltaremos para Portugal. De novo o tempo a corroer-me os espaços largos da alma. São dez da manhã, hora local, e eu estou a acordar.

Queimar lixo, carregar água, ferver água, engarrafar água quente para beber quente, morna ou quase fria. Sonhar com cubos de gelo, iludir o calor com memórias de neve branca e distante… Lavar louça, no fim do almoço, acocoradas entre duas bacias de plástico. Sorrir às crianças que procuram nos nossos rosto microscópicos sorrisos, quase protocolares.

Procurar.

Procurar água, procurar banana, procurar manga, procurar carne, procurar ovos (isto não foi, ainda, encontrado), procurar lixívia na venda, procurar açúcar na venda, procurar calda de tomate na venda… procurar, procurar, procurar…

Procurar: eis o verbo que substitui o nosso “comprar”. Não é só poesia. É mesmo assim: procura-se tudo aqui. Nem tudo se encontra.

Encontrar.

Encontram-nos os mosquitos, as cobras, o paludismo, as febres, a fome, a sede, a doença… a morte. Sempre a morte a entrar casa dentro, sem bater, sem pedir licença, sem se demorar, sem mudar de ideias, sem contemplações. (Procurar sorrisos urge!)

Encontrar: eis o verbo que substitui, sem qualquer paralelismo, o substantivo “miséria”.

Tudo muda aqui. Muda, até, a morfologia das palavras.

Estamos a meio percurso de Béli. Procuramos tempo.

Voltou a anoitecer. Dói-me a barriga. Muito.

Sair daqui ocorre-me. Não digo “daqui”, de Béli, digo “daqui” daquele espaço que, às vezes, se invade de mim e sufoca instantes e fica à espera, expectante, certificando-se de que no limiar do sufoco, brilhará uma pedra estilhaçada de soluções.

O desenho filiforme das minhas emoções recomeça o seu movimento lúgubre. Consola-me o facto de não ter tempo, nem espaço, nem motivos para lhe dar continuidade.

Passa. Já passa. Isto há-de passar antes mesmo de adormecer… Talvez mais grave seja mesmo a dor de barriga. Por uma vez é a razão que me mutila a dispersão idiota dos sentidos. E amanhã, tenho a certeza, nada disto terá sido escrito. Amanhã, escreverei apenas sobre amanhã. Deixar-me-ei de cenários insondáveis.

Boa noite, Béli!

13 de Agosto de 2007


Bom dia! “O mundo é uma ervilha”. Pequeno e muito condensado de informações. Ontem à noite, falei e escutei várias línguas na cosmopolita Béli… apesar dos esforços, parecíamos os únicos culturalmente deslocados. Enfim, nós e o alemão. Poderá ser uma coisa de cor de pele, mas sabemos que não.

Este “bom dia” é especialmente para alguém que se tornou muito importante ao longo deste ano, cujo convívio diário de tanta partilha terá que ser suspenso, pelo menos, por um ano. Tudo se relativiza a partir daqui, mas nunca nos esquecemos dos factos e das pessoas que marcam. O meu primeiro pensamento de hoje foi para S. Espero que a sua experiência nova seja tão gratificante como esta minha. E acho curioso o facto de ter conversado em alemão com um berlinense, em plena Béli, na véspera da sua partida para Berlim… há coincidências verdes e abertas, nesta ervilha críptica.

Hoje dormi pouco e fui dar formação. Há muito para dizer sobre isso, mas não cabe nestas linhas. Já voltei a dormir e estou a tentar acordar, de novo.

O episódio “lixívia”, do qual não dei conta neste caderno nem pretendo dar, deixou-nos a todos um pouco tontos e, mais que tudo, com a sensação de que éramos um pouco totós. Estamos a recuperar aos poucos disso.

Estamos a chegar do jantar mais divertido de que há memória. Eu tive vários ataques de riso, como que para fazer concorrência aos episódicos ataques da Carina, à hora das refeições…

Vou parar para seguir a reunião da Ana com o Mamadú. É o que eu digo: trabalha-se muito nesta terra!

A reunião acabou, vou aproveitar o resto da luz para escrever…

O Amadú é muito calmo, delicado e inteligente. Fiquei a saber que é muçulmano e que a sua filha fez o fanado com direito a excisão (nas suas palavras), “de uma forma razoável”. É estranho que eu estivesse a pensar nessas mesmas palavras, quando ele as usou. É demasiado assustador que tenha pensado no termo “razoável” para falar de tal coisa. Parece-me que é a sua figura ponderada que quase me convence que há uma forma razoável de provocar sofrimento, de ocultar prazer, de oprimir, de censurar, de usurpar, de marcar no corpo, para sempre, a amargura, a angústia, as lágrimas de gente que nunca aprendeu a chorar.

Os programas de rádio, parece-me, serão uma mais valia para esta comunidade. Consegui entusiasmar-me um pouco mais, ainda, com este projecto.

Hoje voltei a perceber o tempo com dificuldade. Mas esta foi a dificuldade da despedida anunciada. Parece-me que o tempo em Béli vai tomar uma velocidade superior. Talvez me apeteça pará-lo.

Bem, e falta dizer que vamos todos ver o “Verão azul”.

Boa noite!

Agosto, 12 ou isso…



Que fome!!!

Começo a achar que vou passar um pouco de fome e sede.

Hoje, o Gheto ferveu aí uns 25 litros de água durante 2 horas 8não há bicho que resista!). Estamos sem água para beber e isso, aqui, é assustador! Acho que já toda a gente perdeu peso. (Eu nem quero imaginar quanto peso!).

Hoje é domingo e ninguém trabalha na tabanka. Nós vamos fazer programa às 7.

A Cátia, hoje, ainda não foi dormir (O que é de estranhar, porque ela farta-se de o fazer). Eu e o Hugo somos os monopolizadores da casa-de-banho, a Carina tem ataques de riso a todas as refeições e a Ana, embora seja a mais cautelosa de todo o grupo, está quase a perder a “esquisitice”.

Neste momento, estamos a escrever textos de apresentação para a rádio e depois, vamos consultar a agenda a ver se temos espaço para a diversão… E forças também.

Enfim: um mundo de agitações, esta tabanka!

Bem… é quase uma da manhã. Tivemos visitas na tabanka: uma delegação da Guiné-Conakry, que trabalha em parceria com uma organização do governo alemão. Não sei se percebi tudo bem, porque a conversa deu-se toda em francês.

O Gheto excedeu-se como performer, relações públicas e presidente do mundo!

Foi muito divertido e também assustador: apareceu a escassos metros de nós a 3ª cobra, desde que cá estamos. Uma picada daquilo e… “aurevoir” em várias línguas… ou talvez nem chegue para dizer “adeus”. Comemos uma bela manga e até bebemos água! Estabelecemos contactos com esses senhores cheios do dinheiro e, quem sabe, salvamos o ISUJ… A ver no que isto dá. Amanhã terei contactos certos.

O dia foi, mais uma vez, muito cheio e houve alguns arrufos, pela primeira vez, mas está tudo tranquilo e eu terei que fazer por dormir rapidamente, que amanhã é dia de muito trabalho.

Boa noite, Béli!

sábado, 29 de setembro de 2007

Agosto 11, 2º sábado


Passou uma semana sobre Béli.

Muitas dúvidas se desfizeram nesta semana. Já todos entrámos no ritmo e nas rotinas da comunidade. Eu continuo a deixar a sesta a meio, por causa do galo e, até a Carina já repete o meu pregão e diz a plenos pulmões:”O caralho do galo!”

Nesta semana, o Hugo teve diarreia, a Cátia uma reacção alérgica à mancara (amendoim) e a Ana teve um pouco de febre, ontem. Eu e a Carina aguentamo-nos estoicamente!

Numa semana bebemos as 25 garrafas de água que trouxemos de Gabú e, agora, temos mesmo que insistir para que o Gheto deixe ferver a água durante uma hora (a ver se ele deixa durante meia). Pedi ao Amadu para lhe explicar que não era esquisitice de branco e acho que ele percebeu. A água é uma preocupação constante, mas a comida também vai passar a ser. As capoeiras de Béli devem estar a acabar, embora o galo continue a cantar. Para além de galinha, comemos outra carne, que não cheguei a perceber do que se tratava, mas era boa. Parecia vaca. Talvez fosse, talvez não… Estou a ficar um pouco enjoada de carne e arroz. Hoje cozinhei o meu “arroz alegria” e todos agradeceram a macedónia de legumes que trouxemos de Gabú. De resto, já percebemos que vamos passar algum aperto na última semana.

Hoje saiu o toca-toca (transporte público que leva gente até aos pneus e que não é mais do que um jeep de 9 ou 12 lugares), e só volta na próxima sexta. O que quer dizer que a comunicação com Gabú será difícil até daqui a 2 semanas.

O Gheto chegou para carregar água. É impagável, a sua dedicação. A água fica num poço a uns 200 metros de casa, mas custa imenso a carregar. Às vezes, vêm umas mulheres ajudar.

Hoje temos que preparar e fazer um programa de rádio. A próxima semana deve correr (ainda!) melhor do que esta. Há muita coisa que não está a ser feita, porque o calor tira-nos imensas forças. Vamos lá a ver…

O meio da tarde não foi muito agradável porque nos confrontámos todos com algumas evidências desencorajadoras. O trabalho com os jovens não tem tido espaço, nem acompanhamento por parte dos parceiros locais. Dá a ideia que não há interesse e muitas informações sobre a caracterização deste público-alvo não nos foram passadas de forma suficientemente completa. Verifiquei um desânimo generalizado que, á hora a que escrevo, já está muito mais atenuado.

Fomos à rádio preparar o programa de amanhã de falámos com o Mamadu sobre a questão dos jovens. Talvez as coisas melhorem na próxima semana. Esperemos que sim.

Está toda a gente a trabalhar e a luz acabou agora mesmo… Já escrevo á luz de lanterna. Aqui pouca coisa basta para as experiências serem únicas.

Boa noite, África!

Agosto,10


Há-de ser meio-dia. Estou a comer uma barra de cereais. Faço isto e tento relativizar uma série de coisas: o facto de a Ana estar adoentada, o facto de o tradutor que nos indicaram para as matronas só ter aparecido no primeiro dia, o facto de o cabo da impressora ter ficado em Gabú, o facto de ser cada vez mais difícil trabalhar em condições mínimas. O trabalho faz-se, mas não será fácil levar registos disso para Portugal.

Foi-me pedida uma “reunião” por causa da reacção que tivemos ontem com o Gheto. Não podemos intervir em nada. Foi-nos dito isto muitas vezes. Sabíamos que ia ser difícil. Estamos preparados, mas naturalmente não conformes com alguns aspectos da cultura local. Havemos de passar por isto juntos, tenho a certeza disso. Mas mais vale começar já o exercício das funções de “chefe”, como eles me chamam, antes que cresçam dissabores.

A tarde fechou-se sobre os meus pés seminus e trouxe os mosquitos…

AAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Estamos de volta da mesa, em exercício de várias funções. Está tudo bem. A Ana está melhor, o cabo da impressora chegou, como que por magia, ao início da tarde…

Hoje entrei, pela primeira vez, no rio. A água é castanha e o fundo tem as mesmas pedras saibrosas dos caminhos: às vezes, magoa, outras, faz cócegas. A árvore que está ao fundo é o lugar mais cobiçado para as crianças (e a Cátia e o Hugo) se empoleirarem como macacos e saltarem.

O Hugo tirou muitas fotos, hoje. Estão excelentes! Passeámos ao fim da tarde pela tabanka e descobrimos a mesquita e o forno. Está a ser um belo dia, quase se prolonga pela escuridão da noite.

Há luz. Muita luz dentro das nossas vontades.

E vem aí o primeiro fim-de-semana em Béli!... A ver…

(Resta dizer que o passeio de fim de tarde tinha o propósito de arranjar bananas… mas não encontrámos).

Viemos a casa depois do jantar. Os céus abriram-se sobre nós. Lembro-me que quando chove com mais intensidade nos longínquos Invernos de Portugal, tenho um pouco de medo… Aqui parece uma bênção. Acho que este período de chuva bate o recorde, desde a nossa chegada. Só verdadeiramente agora, percebo o conceito de “Época das chuvas”.

Agora, em conversa (que eu tratei de criar) voltámos a um ponto engraçado do dia de hoje: esta gente não precisa de calendários para nada. Por isso, praticamente ninguém sabe fazer a contagem do tempo… Foi muito difícil explicar às matronas os meses de gestação, porque elas não conhecem os meses, aliás, parece existir qualquer coisa calendarizada que se aproxima dos nossos meses (calendário lunar, claro está é “de luas”), mas o número de dias varia muito de “mês” para “mês”. Continua a ser inacreditável o nosso grau de ignorância sobre esta cultura.

Agora vamos dar dez passos até à rádio.

O.K. Demos vinte: dez para lá e dez para cá. Já estava fechada a cadeado.

Hoje, para terminar, vou só revelar que estou oficialmente viciada em choques anti-mosquitadas. E também que já não tinha memória de escrever tanto à noite e de dia e de canetaJ

Boa noite!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Agosto, 9




É cada vez mais difícil seguir o calendário e as horas.

Hoje acordámos no inferno “África é madrasta”. A frase esmaga-me o pensamento. É muito fácil chegar do paraíso ao inferno. Aqui percebe-se que nem vale a pena mudar de lugar. Paraíso e inferno estão no mesmo espaço. O grupo está um pouco abatido.

África é madrasta.

E tem cobras. Uma delas matou uma jovem a noite passada. Não a conhecíamos e percebemos que seria muito forte a perda, se já lhe soubéssemos o nome, o rosto, o sorriso… A mãe dela ajudou-nos ontem, a carregar água para casa. É uma das matronas, por isso, hoje não houve sessão com as matronas.

África é madrasta.

É preciso ter cuidado com as relações e os laços afectivos que se criam e… quase não há como evitá-los. Há gente aqui que já é a nossa gente. Há gente aqui que não queremos perder, que queremos guardar para sempre na memória, que vamos guardar para sempre. São a nossa gente. É incrível como a lentidão do tempo nos empurra as pessoas para o centro do corpo!

5 em ponto

O dia, hoje, custa mais a passar porque não tive formação. O Amadu adoeceu (de novo), tem paludismo. Há muita gente doente, muita gente com paludismo crónico. Crianças também. Morre-se tanto por aqui. Aqui, onde a morte parece não ter lugar, morre-se mesmo muito.

O Mamadu (sapateiro e professor) vai enriquecer com a nossa passagem breve. Hoje dei-lhe 5000 “franc” CFA para pulseiras. Os meus companheiros contaram-me agora que estava no centro da tabanka perdido de bêbado. Deve ter mulher(es) e filhos, mas optou por apanhar uma piela das grandes com aquela nota grossa (não chega a dez euros).

Percebem-se as coisas que já sabíamos que seriam difíceis de aceitar. Percebem-se melhor, à medida que deixámos de ser estranhos.

Hoje dei uma volta pelas redondezas da tabanka e descobri que, só em Béli, há doze etnias diferentes! Estávamos todos convencidos que só havia “fulas” por cá. Nesse passeio, um rapaz pequenino apontou para mim e para a Ana, como se estivesse a ver o E.T. indicou, com o dedo próprio, a nossa direcção e desatou a chorar. Foi muito engraçado perceber que, afinal, ainda nem todos sabiam da nossa chegada!

Béli é muito maior do que alguma vez me foi dito, talvez tenha mais de um milhar de habitantes. Parece ser uma terra com muitas possibilidades, mas o isolamento viário é um jugo sobre aquilo que aqui cresce em barda (manga, banana e ananás) e não tem capacidade de escoamento. A fruta acaba por se estragar, antes de chegar aonde quer que seja. É difícil perceber porque não produzem legumes. O solo parece dar para tudo, apesar do “bicho” que dizima muitas culturas. Parece-me que é uma questão cultural, de hábitos (ou falta) de alimentação. A questão da nutrição é fundamental e tem que haver uma educação nesse sentido.

Outra coisa muito estranha são os umbigos das crianças: alguns chegam a ter o tamanho de uma laranja! Todos puxados para fora…

Incrível como sorriem! Incrível como vivem em harmonia! Incrível! Béli é incrível!

(Noite)

Este dia está, de facto, muito mais cheio que o normal e até dá tempo para tomar nota dele…

Hoje a Ana fez a massa do jantar e eu comi bué, mas já tenho fome. As meninas estão a ver a “Frida”, a Ana está a ler eo Hugo a trabalhar, tadinho que é um Cristo!

O Gheto vai casar. Foi muito divertido quando ele contou que já tinha os 75.000 “franc” para dar ao pai da noiva… convidou-nos para irmos lá a casa, mas eu não fui. O facto de a “noiva” ter 12 anos e casar este ano…

Enfim, talvez seja melhor não usar muito do pensamento e da razão ocidental a esta altura. Tudo parece no lugar certo, nos sorrisos felizes de toda a gente. Pode manifestar-se um pouco de surpresa, mas não de incredulidade, um pouco de desacordo, mas não de repulsa total…

12 ANOS.

África é madrasta. E escura a esta hora.

Boa noite!

Béli, 8 de Agosto de 2007



Será cada vez mais difícil escrever sobre os dias de Béli. É difícil explicar este modo de vida comunitário. Não nos sentimos estrangeiros, já. Fazemos parte da tabanka. Temos o dever de ajudar e o direito de ser ajudados, como qualquer pessoa da comunidade.

O Hugo é o favorito de homens e mulheres. É grande, imponente e branco. Tem pêlos nos braços e as mulheres e as crianças acham-lhe imensa graça (também) por isso. Não é que eu não tenha também pêlos nos braços, mas o efeito não é o mesmo, certamente…

As sessões com as matronas estão a ser um sucesso e a Carina parece bem mais forte e decidida. Eu comecei hoje as sessões com os professores e as revelações são extraordinárias, pela positiva e pela negativa. Há professores que mal falam português, lêem a soletrar e são segregados pelos mais velhos e mais experientes. Estão todos igualmente ávidos de conhecimento e eu sinto que tudo faz sentido na minha posição de professora.

As mulheres elegeram-me como predilecta para a conversa (nenhuma delas fala português e muito poucas arranham crioulo). Eu sou a “mulher grande”, vulgo “velha”, por isso, é comigo que querem conversar. A Ana anda triste com esta ideia de o Hugo ser o favorito dos homens (e mulheres) e eu ser a favorita das mulheres… As crianças gostam de todos igualmente, acho.

Gosto muito dos meus companheiros. Toda a gente se está a amanhar muito bem nas suas diferenças e há uma profunda e enraizada noção de respeito.

Estamos a aproveitar um pouco de luz do gerador para escrever, ler e trabalhar. A Carina vai tomar banho e, a seguir, vamos jantar. Estamos a ouvir os “ah-ah” e acho que, pela primeira vez me lembrei de Portugal e do Belião, por causa da Mickey.

Hoje fiquei um pouco desencantada com a sessão de “qualquer coisa que os ponha a conviver” (aos jovens). Acho que essa será a dificuldade maior. Apesar de tudo, correu melhor do que eu estava à espera, mas o diálogo em português é impossível.

Terei de reformular todo o trabalho. É incrível o que trabalho aqui e o prazer com que o faço!

A sério que, às vezes, para além de ter a certeza do conforto de voltar, também me apetece ficar.

Se tiver tempo e a luz me permitir, talvez volte aqui depois do jantar.

…………….

E pronto, lá fomos estragar mais uma festa. Mal nós chegamos, é logo a loucura dos tugas braaaancos e da “foto, foto, foto”… Já quase proibi toda a gente de levar máquinaJ

A ver se vemos um filme ou isso.

Boa noite!

Agosto, 7



Não há memória de tantos dias consecutivos com tamanha harmonia e leveza.

O dia voltou a ser imenso. Imenso pela quantidade de acontecimentos únicos, que vão deixando selos no rosto e no corpo.

Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho a sério. Depois de alguns ajustes tudo decorreu com normalidade, como se diz em circunstâncias oficiais. Até parece que terá sido um dia “mais do mesmo”, mas não foi. Do mesmo só as emoções e as sensações de novidade a atropelarem-se sempre.

O grupo está, de facto, com as mãos unidas. De tal forma que, o Hugo, que está aqui a morrer de sono, não quer ir dormir.

E pronto, eles pediram-me para ouvir o “manifesto Anti-dantas” e estamos às gargalhadas!

Boa noite!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Agosto, 6


Escrevo a meio da tarde. A hora é de sesta, mas a excitação do dia e da noite anteriores não me têm deixado dormir. O galo, que canta mais alto na tabanka, resolveu atracar no parapeito da janela do meu quarto. Canta de hora em hora a partir das 4 da manhã. É a única coisa viva que verdadeiramente me desagrada aqui.

Hoje apresentámo-nos (formalmente, porque já todos detectaram a nossa presença há muito) aos formandos. Teremos que trabalhar com pessoas que não esperávamos, mas aqui tudo tem solução imediata e nem há tempo para stresses ou desagrados.

Não obstante, a comunicação com o ISU não me parece ter sido muito eficaz.

Trabalho, a sério, só amanhã. Hoje é dia de trabalho em casa, em grupo, e de nos salvarmos uns aos outros. Todos aparentamos uma serenidade fora do normal, que não seria imaginável em Portugal.

Neste momento, a Cátia acordou da sesta, eu estou a escrever deitada na cama, envolta por uma rede mosquiteira, a Ana escreve cartas para enviar pelo Djulde para Bissau, na esperança que algumas notícias cheguem a casa. O Hugo esticou-se no chão da sala e adormeceu. A Carina está na varanda a conversar com o Gheto e uma das matronas. Teremos todos que nos concentrar bastante no trabalho dela, porque as pessoas com as quais não contávamos irão trabalhar com ela.

Hoje tenho uma última reunião com o facilitador da DIVUTEC, o Djulde Djaló e, agora, vou deixar de escrever para trabalhar um pouco na preparação da sessão de amanhã com a Ana e o Hugo. Talvez volte a escrever, mas não garanto. Estou muito cansada e com dores musculares.

(uma hora mais tarde)

Fomos ao rio, mas eu e a Ana voltámos porque fomos assaltadas por mosquitos. Eu vim para a varanda, onde garantidamente a referida raça continuará no seu ritual de massacre.

No caminho de volta do rio vimos 3 jovens a pilar arroz. Um deles é o Uri, um dos netos do Júlio, o nosso tradutor. O Júlio* disse que já não se importava de morrer, pois já tem 27 filhos. Não deve ter mais de 45 anos e, quando a Ana comentava a beleza extraordinária de uma bebé de colo, ele referiu que seria sua mulher…

A nossa única defesa é não escutar tudo o que ouvimos, nem ver tudo o que se olha. E falo, naturalmente, também de uma total incapacidade de o fazer com algum rigor.

Já passa da meia-noite. Estivemos a trabalhar até agora. Estamos de rastos. Vou dormir. Era só para dizer: Boa noite!


Agosto, 5 (3º dia)


Outro dia com dimensões novas.

Béli é, de facto, uma bela tabanka. Béli é, sobretudo, pessoas. Crianças, às dezenas, espalham-se pelo mato, pelos caminhos de terra vermelha, pelo pátio da nossa casa…

Acordámos com o cantar do galo, mas foi com o burburinho de crianças que nos levantámos. Tivemos todos a certeza desse momento único.

O grupo exprime pouco aquilo que é abusivamente óbvio: estamos dentro de um sonho, coroado do quotidiano agitado dos outros. É cedo. É muito cedo para tirar ilacções, mas é muito mais tarde do que cedo para definir por inteiro o desejo de ficar, ficar muito tempo.

As crianças ficaram para nos levar a passear orgulhosamente, num enroscar de mãos e olhares e sorrisos e gestos e passos miúdos, que nos arrastam e fazem levitar, em simultâneo.

“kuma?! Kuma di Kurpu? Kuma di família?!” – num delírio infantil, apaixonamo-nos por esta nova linguagem e cumprimentamos a todos.

Tinham-nos dito que eram poucos. Mas não. Saem de todo o lado! E as crianças riem de uma felicidade que nos entra pela pele naturalmente, como o sol. Como esta estação desconhecida, esta quinta Estação: a das chuvas.

O dia foi longo e árduo.

(As crianças riem, ainda).

A nossa casa já parece nossa. Está limpa e tem cheiros recentes. Os nossos cheiros misturam-se entre si e com os cheiros da terra. Estamos exaustos. São horas de reunião. Estamos exaustos e as crianças… sorriem dentro de nós.

Depois da reunião fomos ao rio. Nós e um rio de de gente, um rio de pés descalços, um rio de gritos, um rio de sorrisos, um rio de tanta paz!

Pensávamos que o dia tinha sido muito longo.

Nem nos ocorreu o lençol de estrelas que nos haveria de abrigar, nem nos ocorreu que o jantar fosse de domingo, nem nos ocorreu… nunca nos poderia ter ocorrido o sabor doce das lágrimas que nos escorrem nos rostos pálidos da escuridão.

A dança, o ritmo, os corpos que mandam no desejo e nas emoções da gente. Era, de facto, muito improvável que nos ocorresse África inteira… tão cedo, tão espontânea, tão nossa. Não nos ocorria que dias assim eram prováveis, possíveis, realizáveis.

E agora, no fim da festa, da agitação, do frenesim, só nos ocorre que as crianças sorriem muito por entre os sonhos.

Boa noite!

Agosto, 4


Falta um minuto para as sete da manhã. Acordei com indisposição e dores do período. Saí do quarto, dei uma volta completa à varanda (completa) da pensão da Avó Berta.

Nas ruas, os carros perseguem buracos de lama vermelha, e o ruído das rãs nocturnas foi substituído por o de outro animal, cujo nome e feitio (também) ignoro. O nosso “guia”, de nome Djulde (creio!), respondeu, de forma muito peremptória, à pergunta de todos: ”que pássaro enorme é aquele?” –“ ah… é um pássaro simples!”. Sinto que o dia que agora começa há-de ser tão simples como esse pássaro. Veremos.

Não sei bem quantas horas são. Não sei bem quantos dias se passaram hoje no tempo normal. Não sei bem se há padrões exactos e bem definidos para o tempo.

Chegámos a Béli de noite. Viajámos o dia todo. Os meus companheiros estão exaustos. Eu nem por isso.

Hora de saída de Bissau: 9 da manhã. Parámos em Gabú para almoçar e fazer compras.

Gabú é irrespirável.

Aqui respira-se a selva elegante de África. A fauna e a flora a passearem-se na passerelle de cinco idiotas brancos.

Estamos sentados à varanda da casa ainda inóspita. Recebemos as nossas primeiras visitas: o Mamute e o Uri. São ajudantes de mecânico, dizem. Dizem que nos vêm arranjar o motor que puxa a água. Há alguém a tomar mais um banho de “chap-chap”. Creio que é a Cátia.

Nada do que aqui se vê é, de alguma forma, reproduzível. Nem em fotos, nem em palavras. Nem escritas nem faladas.

De qualquer forma, sinto-me bem aqui. Uma tranquilidade incomparável. Irrepetível, muito provavelmente. Tenho algum receio pelo que ainda falta vir. Todos temos. Todos sabemos que vamos resistir e insistir. “Todos” (agora que penso nisso) é uma palavra que me há-de acompanhar as próximas semanas.

Boa noite!

P.S – Só porque amanhã não será este o dia, convém criar esta adenda: o Hugo teve diarreia. Sofreu. Sofremos todos.

Agosto, 3


África!!!!!!!!!!!!!!!

Hoje não deve dar para dizer mais nada…

Depois de vários incidentes (todos da autoria da Carina) cá estou a escrever esta nota, à luz da lanterna e ao som de Wim Mertens.

Bem, fiquei a saber que a Carina adora pólen… Humm, talvez tenha sido por isso que se perdeu no aeroporto de Lisboa e nos pregou um susto dos diabos!

Agora, a sério: estou em África. Passeei-me pelos mercados de Bissau. Acho que percorri uma capital a pé… Nunca imaginei que isso fosse possível. Mas é. Estou exausta. Acho que estou feliz. E não há qualquer explicação para isso. Não tem que haver, parece-me. Parece-me tudo muito… TUDO.

Até amanhã!

Manga di coisinhas que desconheço...


Agosto, 1

Depois de algumas horas, acordarei em África. Não sei se voltarei a saber conjugar o verbo “ficar”.

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