sábado, 8 de dezembro de 2007

Outros dias na memória

Primeiro minuto de 13 de Setembro

Queria acordar em África e adormecer na Índia. Queria ter um sonho que não fosse proibido numa ilha do pacífico, mas se um anjo me revelasse o teu nome ia visitar-te ao paraíso, meu piquenique.

Setembro, 12



Hoje é o aniversário do Amílcar Cabral. O acontecimento está a ser celebrado com uma marcha que percorre o país, desde Logajole até Bissau. Chamaram-lhe: “marcha da independência”. O ambiente nas ruas e na casa do nosso vizinho/anfitrião é festivo.

Ainda bem que aproveitei a manhã para fazer “coisinhas” porque agora chove “banana i manga” e não dá para sair de casa.

Mas mesmo sentada na varanda consigo ter imagens soberbas e (ainda) surpreendentes deste país. No campo de futebol, à minha esquerda, os putos chapinham com a bola na lama e conseguem, não sei muito bem como, encontrar-se entre a cortina baça que a chuva monta. Um guarda-chuva segue-os. Diz-nos o Bucari que é o árbitro, como se isso fosse um cenário óbvio. Os abutres arrastam-se em nuvens pelo terraço do governador. As palmas e os gritos sucedem-se na mesma casa.

Aqui visitam-nos pessoas. Sentam-se e ficam. Outras vão, quando têm que ir, nem que sejam já “quinhentas”. As emoções descongelaram. Estavam, afinal, ainda muito longe do que agora são. As reacções físicas começam a manifestar-se.

Acho que vou quebrar a regra e escrever este dia, amanhã, ou depois, ou… um dia, quando estas coisinhas forem fanadas (passo a expressão tétrica) pelo tempo.

11 de Setembro


Não vi notícias. Só agora reparei na data.
É quase meia-noite, acho. A cidade está silenciosa. Os sons desta varanda são os mesmos de sempre: grilos e gerador. Fizemos uma tentativa frustrada de levantar os ânimos, mas é demasiado penosa a melodia da despedida. E Béli aqui tão perto… 80km impossíveis de percorrer. A mim apetece-me muito voltar. Acho que a todos.
O trabalho em Gabú foi excelente em todos os aspectos, e as pessoas são extraordinárias, mas ao sair daqui a saudade que bate é a da minha gente de Béli.
Dói-me a cabeça. Vou dormir.
Até já, Portugal...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

10 de Setembro de 2007



O meu “objecto cardíaco” recomeça a bater de forma novamente nova.

O Bucari acaba de sair desta varanda com lágrimas no rosto. Ofereci-lhe um livro que lhe causou alguns arrepios. Talvez por não ser um livro qualquer, talvez por ter percebido a despedida com mais certeza, ainda. Não sei. Não tenho vontade de escrever as minhas vontades de hoje. Talvez não seja justo escrever sobre as vontades dos outros.

O dia foi muito bom, outra vez. Acho que nunca tive um dia que, verdadeiramente, não fosse bom, neste país.

A evidência da saudade estrangula-me a corrente desenfreada de palavras.

Dormirei, não em busca da tranquilidade, mas na esperança de a não perder.

Boa noite, amigos novos!

domingo, 2 de dezembro de 2007

Domingo, 9 do 9


Domingo, 9 do 9

Espirrei. Agora é esperar para ver o que acontece. Há uma parte de mim completamente preta: os pés. As sandálias desbotam e como passo a vida a chafurdar na lama e a escolher a melhor poça de água para lavar os pés a seguir… enfim, coisas de cá.

Hoje, organizámos uma festa/convívio no centro multifuncional. Começou “à partir di 4 hora”, que é a forma correcta de dizer horas certas na Guiné. Eu acho que passarei a usar essa e outras expressões que me parecem adequadíssimas ao contexto português.

Não aprendi a falar crioulo, mas já percebo muito bem muitas coisas. Tem uma lógica muito cultural, por isso, depois de se conhecer um pouco a cultura, entende-se melhor este português mal falado. Tem também algumas semelhanças, pela proximidade com o Senegal e a outra Guiné…

A festa correu bastante bem, apesar da chuva. E por falar nisso: acho que estes guineenses são um “cadito” medricas. Basta chover para a discoteca não abrir (eu sei que a pista é ao ar livre, mas não e justificação). Eu dancei e as crianças acharam muita piada… inventei umas coreografias e todos me imitaram cheios de sorrisos.

Tudo aqui é facilmente transformado num sorriso. Eu sei que me ando a repetir nesse campo, mas é impossível não ceder ao fascínio da evidência.

Vi mais sorrisos num dia de Guiné-Bissau do que num ano inteiro de Portugal. Não é que a comparação faça muito sentido… é só para nunca mais me esquecer que a alegria e os sorrisos não custam nada e que, mesmo que me pareça que o mundo vai desabar sobre a minha cabeça… “Ca tem problema”!

E mesmo depois de saber que os “djimbés” não vieram de Béli e que lá se foram 40.000 franc… “ca tem problema!”.

Arruínam-se as últimas horas. Hoje seria noite para sair: há um tapete de estrelas no céu de Gabú, mundial de estrelas”, como diria o Bucari, e as “rabadas” da cidade devem estar já no auge da agitação. Mas nós estamos cansados. É que, a brincar, a brincar, somos das poucas pessoas que trabalham e cumprem horários, nesta terra!

Ainda não são dez e meia e já só pensamos em dormir. A Cátia, claro está, nem pensa nisso: dorme e pronto.

Eu deveria pensar o que fazer na aula de amanhã. Espera-me mais um dia cheio. Será o último de formação. Em principio, voltamos para Bissau na quarta-feira, mas já há quem proponha quinta. Habituámo-nos a Gabú. Será difícil, a partida. Apesar de as dimensões não terem comparação, também já sentimos o carinho da população: já nos chamam pelo nome, quando passamos, já não somos só os “braaancos pelélé” de melodia arrastada, já não se riem de nós no mercado, quando fazemos negócios pelélé, já se riem menos de nós por andarmos à chuva… habituam-se a tudo, tal como nós:

Já não são tão insuportáveis os cheiros, já não são disparatados os hábitos, já paramos em poças de água escura e lamacenta para lavar os pés e achamos que ficam, de facto, limpos, já não nos espanta a fealdade dos abutres, já são menos longos os dias… já ficávamos…

8 de Setembro de 2007


“Happysódios em África”!. Resolvi dar este nome aos relatos que faço neste caderno. Não tenho memória de momentos de felicidade tão prolongados, como os que aqui tive. Fica então, o trocadilho piroso, mas eficaz, acho.

Hoje falei com outras pessoas da minha vida e a saudade agudizou-se. Já ontem isso aconteceu. Mas ainda assim, sei que dificilmente sentirei da forma que sinto fora deste espaço.

“Ca tem problema”! Efectivamente, tudo parece ter solução imediata, os problemas nem chegam a compor-se, aqui.

Falar com o “velho continente”, contactar com esse espaço de pessoas e mundos tão distantes… não é adequado. Não sei se resistirei a fazê-lo de novo, mas sei que a leveza que sinto, se dissipará, nesses instantes.

7 de Setembro


7. Faltam 7 dias.

Hoje estou em êxtase, depois de um longo dia de trabalho. Acabámos agora mesmo de constatar que a nossa primeira noite de beber umas “jekas” até “às quinhentas” pode estar ameaçada pelo mephaquin. Mas já se resolve.

Os meus formandos de teatro são do melhor que se pode ter! Têm tudo: noção de cena, voz, movimento, perspicácia, astúcia, sensibilidade e ignorância q.b. Pela primeira vez faz sentido fazer sessões de teatro e não de Expressão Dramática. Fazem-me lembrar imenso o Rogério de Carvalho e isso é, definitivamente, muito bom. Devo ter estabelecido um “record” pessoal de construção de cena: 3 horas (ou 2) para mais de 10 minutos! E isto toma nuances de Olimpo, se acrescentar que o texto é improvisado in loco. Se tudo continuar a correr assim, terça-feira apresentamos uma peça, na cerimónia de entrega de certificados.

No momento em que falo destas coisas, cerca-nos o ruído do gerador e de alguns bichos nocturnos. Há quem leia, à minha volta, e entre essas pessoas há que apontar que, até o “Xerife” consegue ler sem levantar a voz. Agora chegou o Every (filho do governador) everyday, everytime, everywhere, there he is!:)

E pronto, é fim-de-semana e eu já estava mesmo a precisar.

Por vezes, fecho os olhos e imagino que estou em África: danço como se estivesse em África, cheiro os cheiros fétidos de África, respiro a brisa cálida de África, levanto o rosto exangue sob a chuva doce de África, adormeço nos braços imensos de África… Por vezes, abro os olhos e parece-me mesmo que estou em África!

Aprendi, aqui, a imaginar África. Imagino que sempre que os meus olhos se fecharem, verei África entre o teu rosto e talvez dance no interior do teu olhar.

Boa noite, meu Amor!

6 de Setembro


Fazem-se de emoções e contradições, estes últimos dias. A sensação de que o tempo já não correria veloz, voltou a trair-me. Falta muito pouco e o tempo foge-nos pelo canto suspenso dos olhares.

Hoje fomos ao ensaio para sair “até às quinhentas” e voltámos às onze e meia com a sensação de que eram, efectivamente, “quinhentas”!

A discoteca “JOMAVE” só funciona ao fim-de-semana. Passámos lá e até parece agradável… A pista é ao ar livre e hoje chove…

O Bucari já começou a lamentar a nossa partida. Para ele deve ser ainda mais difícil do que era para nós, suponho.

Tem sido um amigo. É um amigo. É provavelmente a pessoa em quem mais confiámos aqui e nem vinha referenciado… Dá-me esgares de generosidade excessiva. Aqui não tem qualquer hipótese e consegue viver com essa certeza. Tem uma consciência surpreendente e um sentido de humor, que só pode justificar a sua inteligência.

Estou a ficar cansada. Amanhã terei um dia de trabalho muito longo, com muita responsabilidade e, mais uma vez, vou ter que improvisar…

Salvam-me as décadas de prática na matéria…

Hoje encontrámos pessoas de Béli, que nos deram más notícias sobre o estado de saúde do Gto. Os soldados deram-lhe uma valente sova. A sua vida corre um risco grande. Segundo parece, está detido no quartel… O mais provável é que continue a ser maltratado. Justiça pelas próprias mãos é a lei vigente, não tenhamos (e não temos) ilusões. Mesmo que viva, o Gto será seguramente, abandonado pela sociedade. Acho que o ISU perdeu o seu cozinheiro/artista/louco.

A crueldade do ser humano está aqui no seu estado mais puro, lado a lado com a generosidade. Enfim, coisas imensas se passam neste continente imenso. E eu sofro imenso se não puder voltar.

Boa noite, África escura!

Setembro, 5


Estou enjoada. Hoje não escrevo mais. Cama comigo!

4 de Setembro de 2007



Em que outra parte do mundo os vizinhos se fazem família e os amigos se fazem vizinhos?

Em que outra parte do mundo nos povoam a varanda, ao entardecer, para contar histórias, entrelaçar conversas, contagiar de alegria e de sorrisos, os nossos corpos cansados, as nossas vidas do longe?

Em que outra parte do mundo nos sentimos em casa, quando tudo é estranho e novo, quando nem o código de comunicação coincide, ou acontece de forma muito baça?!...

Em que outra parte do mundo ouvimos até ao fim o desenrolar da ideia mais absurda, do pensamento mais revoltante, da convicção mais ignóbil?

Em que outra parte do mundo somos capazes de dar, receber e criar espaço para tudo e para todos?

Em que parte do mundo se vai partindo e repartindo o meu coração com o coroar dos dias, dos momentos e das pessoas?

Parte-se em pranto, se aqui não se voltar. Parte-se a fazer parte e volta-se, um dia. Sabe-se sempre que se volta.

(horas depois)

Fomos jantar ao “pó di terra”, como sempre. O régulo Saico, o Bucari, a Sophie e a Natália fizeram-nos companhia. Eu hoje estou muito sossegada e não me apetecia fazer mais conversa. As refeições passaram a ser momentos quase familiares e, apesar de todos serem muito agradáveis, apetecia-me estar só com a minha gente… e gostava que a Carina também estivesse. Diria que começo a sentir uma certa nostalgia pelas nossas refeições em África com gente por quem começo a sentir coisas muito sólidas.

Eles dormem todos. Volto à solidão composta da varanda. O cenário do costume: eu, o caderno, a vela e a escrita que me vela os momentos.

O gerador calou-se. Oiço grilos e mosquitos ziguezagueantes no meu cabelo.

Falta uma semana para deixar Gabú e já não sinto que o tempo vá voar. Esta será, provavelmente, a semana de mais trabalho para mim. Estou a ficar bastante cansada, mas sei que será um prazer participar em todos os momentos de formação.

Hoje fomos prendados com a visita de Amadou e rimo-nos a bom rir com a desastrosa novidade de Béli. O Gto, ficou sem lábio, por se ter metido com a mulher errada… Mulher fula não está para brincadeiras e não foi de modas: zás arrancou o lábio ao homem! Parece-me que o desgraçado do Gto está em muito maus lençóis… Já não tinha dentes, agora tem a porta da boca escancarada! As coisas que se passam nesta terra!

Boa noite, Gabú!

3 de Setembro


É quase meia-noite e eu acabo de tomar o Malarone. Quer isto dizer que me ando a candidatar à malária (mais coisa menos coisa)...
O dia foi extenuante e bom. Conhecemos uma francesa cooperante muito louca e a sua amiga espanhola de Granada. Foi bastante divertido e animado todo o dia.
Agora vou dormir que amanhã tenho 40 professores chatos para aturar!
Boa noite!

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