
À hora a que escrevo já não me lembro de metade do dia. É impossível tomar nota deste quotidiano. É impensável fazê-lo de forma completa.
Aqui não recebemos visitas de crianças. Só os adultos vão passando para “djumbaj”.
O nosso guarda, o Malu (acho!) é a pessoa mais delicada que conheci em toda a Guiné. Não fala português e isso parece entristecê-lo muito. Veio falar comigo para lhe dar explicações, com a convicção firme de que conseguiria fazê-lo num ou dois dias…
O Bucari vai connosco para Bissau no fim-de-semana. Levar-nos-á a ver a menina mais linda de Béli, a Binta, que é, tal como a Safi, sua sobrinha. O grupo está a envolver-se de forma muito pessoal com as pessoas. É inevitável fazê-lo, eu sei… Mas assim, a despedida será um sufoco, como foi a de Béli. A perspectiva e o medo de não voltar apertam muito o peito.
Hoje ao almoço, decidimos formar uma ONG. O ISU é um estímulo para fazer mais, de forma mais elaborada, mais pensada, mais centrada nas pessoas de cá, no seu bem-estar… Sinto-me mais capaz. Sinto-me mais solidária. Menos egoísta…
E agora, estou na cama com a Carina, que não há meio de se calar… Por isso, vou parar por aqui para não baralhar muito as ideias e o discurso.
Entretanto, vamos ver se vamos jantar.
Fomos. E ficámos retidos imenso tempo por causa da chuva. Depois, lá viemos com tranquilidade, uns calçados outros descalços a chafurdar nas poças de água e lama e a fugir dos rios…
Estamos todos muito bem. Bem-dispostos, bem uns com os outros, bem cada um consigo (pelo menos, assim parece). Nem nas melhores perspectivas isto poderia estar a correr tão bem.
Acorda bem, Gabú!
(É só para acrescentar uma observação, sobre algo que me tem aborrecido: é para aí a quinta tentativa de ler o W. Faulkner e não consigo. Acho uma seca brutal! Ainda não li nenhum livro desde que cheguei aqui e não é, seguramente, por falta de tempo. Terá sido das escolhas?)
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