Saída circular em torno do Sector redondo de Boé. Boé é histórico para a Guiné-Bissau. Aqui foi assinada a independência, aqui se deu grande parte da guerra colonial e civil. Ali, entre as colinas cerradas de Boé, há-de ter-se forjado esta espécie de país. Nada, no entanto, existe a assinalar essa importância. A tabanka (Lugajole) parece fantasma, mas tem umas instalações de um projecto da Cooperação italiana, que passou por cá há mais de dez anos. O centro de saúde tem melhor aspecto que o de Béli 8pelo menos por fora), mas o enfermeiro é o mesmo, o Madi, Delegado de Saúde, que nos queria levar antibióticos, mas nós não fomos nessa.
O passeio durou pouco mais de duas horas, mas foi muito cansativo. Está muito calor, hoje e, á hora a que escrevo, já nos fomos todos refrescar ao rio de Béli.
Havia uma festa hoje à noite, que acabou por não acontecer por alguma razão que continua a escapar-me. São muitas as coisas que me escapam, aqui. Talvez também não me apeteça fazer esforços adicionais. O momento é de catarse inversa. Acontece em silêncio, longe e desprevenida, essa catarse. O facto de não perceber nada de “fula” e muito pouco do pouco crioulo que aqui se fala não ajuda no processo de descodificação dos momentos mais sinuosos e imprecisos.
O Gheto anda um pouco alheado e talvez incomodado com a nossa presença. Acho que temos uma atitude demasiado participativa para aquilo a que ele está habituado. Mas pode não ser nada disso… Hoje trocou umas palavras com a Ana, que eu adorava ter ouvido! Assim, fica só o relato transformado:
A Ana perguntou-lhe, se ele continuaria a viver naquela casa, depois de casado com a sua mulher (a tal criatura, enteada de África, que tem 12 anos), ao que ele respondeu “não”. Ele ficaria ali e ela lá (gesticulou para o cimo da tabanka) e disse que, e passo a citar:”quando precisar de usar mulher, vou lá 5 minutos e volto”.
Ele, o “djimbé” e a sua atitude de artista quase excêntrico não compareceram à festa (ou ao plano de festa)… Estranho! Só espero que não tenha sido tomado por essa necessidade de usar mulher. Essa ideia incomoda-me mais hoje do que ontem. Incomodar-me-á mais amanhã do que hoje. As coisas que sabia que incomodariam já não ficam camufladas nos sorrisos das crianças. Até esses sorrisos começam a incomodar…
Mais cinco minutos disto e talvez vá dormir. Volto a não ter vontade. A noite passada tive uma insónia… talvez não seja assim tão silenciosa, a catarse… talvez se tenha, apenas, camuflado nos primeiros instantes estonteantes de África. Talvez se consiga prolongar num interior desfeito, por causa disto de se estar a ambientar a África. Talvez não passe nunca deste imenso “talvez”. Penso já no regresso. Talvez seja necessário, afinal. Mas hoje não. Ainda não.
Falta-nos uma semana (ou menos que isso) de Béli. Será veloz. Tenho a certeza de que o tempo vai recomeçar a pregar-nos partidas. Gabú parece-me irrespirável. Não tem rio, tem poucas árvores e mato… mas terá telefone e água engarrafada.
Talvez não se possa ter tudo em todo o lado, ao mesmo tempo. Talvez me contente com tudo o que, por ora, tenho. Tenho uma luz de vela ténue e música. Tenho o silêncio (raro) da noite de Béli. E tenho ainda algumas vontades (ainda) secretas.
Boa noite, Béli!
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