Outro dia com dimensões novas.
Béli é, de facto, uma bela tabanka. Béli é, sobretudo, pessoas. Crianças, às dezenas, espalham-se pelo mato, pelos caminhos de terra vermelha, pelo pátio da nossa casa…
Acordámos com o cantar do galo, mas foi com o burburinho de crianças que nos levantámos. Tivemos todos a certeza desse momento único.
O grupo exprime pouco aquilo que é abusivamente óbvio: estamos dentro de um sonho, coroado do quotidiano agitado dos outros. É cedo. É muito cedo para tirar ilacções, mas é muito mais tarde do que cedo para definir por inteiro o desejo de ficar, ficar muito tempo.
As crianças ficaram para nos levar a passear orgulhosamente, num enroscar de mãos e olhares e sorrisos e gestos e passos miúdos, que nos arrastam e fazem levitar, em simultâneo.
“kuma?! Kuma di Kurpu? Kuma di família?!” – num delírio infantil, apaixonamo-nos por esta nova linguagem e cumprimentamos a todos.
Tinham-nos dito que eram poucos. Mas não. Saem de todo o lado! E as crianças riem de uma felicidade que nos entra pela pele naturalmente, como o sol. Como esta estação desconhecida, esta quinta Estação: a das chuvas.
O dia foi longo e árduo.
(As crianças riem, ainda).
A nossa casa já parece nossa. Está limpa e tem cheiros recentes. Os nossos cheiros misturam-se entre si e com os cheiros da terra. Estamos exaustos. São horas de reunião. Estamos exaustos e as crianças… sorriem dentro de nós.
Depois da reunião fomos ao rio. Nós e um rio de de gente, um rio de pés descalços, um rio de gritos, um rio de sorrisos, um rio de tanta paz!
Pensávamos que o dia tinha sido muito longo.
Nem nos ocorreu o lençol de estrelas que nos haveria de abrigar, nem nos ocorreu que o jantar fosse de domingo, nem nos ocorreu… nunca nos poderia ter ocorrido o sabor doce das lágrimas que nos escorrem nos rostos pálidos da escuridão.
A dança, o ritmo, os corpos que mandam no desejo e nas emoções da gente. Era, de facto, muito improvável que nos ocorresse África inteira… tão cedo, tão espontânea, tão nossa. Não nos ocorria que dias assim eram prováveis, possíveis, realizáveis.
E agora, no fim da festa, da agitação, do frenesim, só nos ocorre que as crianças sorriem muito por entre os sonhos.
Boa noite!
1 comentário:
Descobri o seu blog por acaso, li alguns posts, são de ficar com água na boca, não percebi bem o que estão vocês aí a fazer, cooperação? sou jornalista, gostaria muito de trocar impressões consigo.
gomes.p.ana@gmail.com
Continuação de boa estadia e de bom trabalho.
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