Escrevo a meio da tarde. A hora é de sesta, mas a excitação do dia e da noite anteriores não me têm deixado dormir. O galo, que canta mais alto na tabanka, resolveu atracar no parapeito da janela do meu quarto. Canta de hora em hora a partir das 4 da manhã. É a única coisa viva que verdadeiramente me desagrada aqui.
Hoje apresentámo-nos (formalmente, porque já todos detectaram a nossa presença há muito) aos formandos. Teremos que trabalhar com pessoas que não esperávamos, mas aqui tudo tem solução imediata e nem há tempo para stresses ou desagrados.
Não obstante, a comunicação com o ISU não me parece ter sido muito eficaz.
Trabalho, a sério, só amanhã. Hoje é dia de trabalho em casa, em grupo, e de nos salvarmos uns aos outros. Todos aparentamos uma serenidade fora do normal, que não seria imaginável em Portugal.
Neste momento, a Cátia acordou da sesta, eu estou a escrever deitada na cama, envolta por uma rede mosquiteira, a Ana escreve cartas para enviar pelo Djulde para Bissau, na esperança que algumas notícias cheguem a casa. O Hugo esticou-se no chão da sala e adormeceu. A Carina está na varanda a conversar com o Gheto e uma das matronas. Teremos todos que nos concentrar bastante no trabalho dela, porque as pessoas com as quais não contávamos irão trabalhar com ela.
Hoje tenho uma última reunião com o facilitador da DIVUTEC, o Djulde Djaló e, agora, vou deixar de escrever para trabalhar um pouco na preparação da sessão de amanhã com a Ana e o Hugo. Talvez volte a escrever, mas não garanto. Estou muito cansada e com dores musculares.
(uma hora mais tarde)
Fomos ao rio, mas eu e a Ana voltámos porque fomos assaltadas por mosquitos. Eu vim para a varanda, onde garantidamente a referida raça continuará no seu ritual de massacre.
No caminho de volta do rio vimos 3 jovens a pilar arroz. Um deles é o Uri, um dos netos do Júlio, o nosso tradutor. O Júlio* disse que já não se importava de morrer, pois já tem 27 filhos. Não deve ter mais de 45 anos e, quando a Ana comentava a beleza extraordinária de uma bebé de colo, ele referiu que seria sua mulher…
A nossa única defesa é não escutar tudo o que ouvimos, nem ver tudo o que se olha. E falo, naturalmente, também de uma total incapacidade de o fazer com algum rigor.
Já passa da meia-noite. Estivemos a trabalhar até agora. Estamos de rastos. Vou dormir. Era só para dizer: Boa noite!
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