quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Béli, 8 de Agosto de 2007



Será cada vez mais difícil escrever sobre os dias de Béli. É difícil explicar este modo de vida comunitário. Não nos sentimos estrangeiros, já. Fazemos parte da tabanka. Temos o dever de ajudar e o direito de ser ajudados, como qualquer pessoa da comunidade.

O Hugo é o favorito de homens e mulheres. É grande, imponente e branco. Tem pêlos nos braços e as mulheres e as crianças acham-lhe imensa graça (também) por isso. Não é que eu não tenha também pêlos nos braços, mas o efeito não é o mesmo, certamente…

As sessões com as matronas estão a ser um sucesso e a Carina parece bem mais forte e decidida. Eu comecei hoje as sessões com os professores e as revelações são extraordinárias, pela positiva e pela negativa. Há professores que mal falam português, lêem a soletrar e são segregados pelos mais velhos e mais experientes. Estão todos igualmente ávidos de conhecimento e eu sinto que tudo faz sentido na minha posição de professora.

As mulheres elegeram-me como predilecta para a conversa (nenhuma delas fala português e muito poucas arranham crioulo). Eu sou a “mulher grande”, vulgo “velha”, por isso, é comigo que querem conversar. A Ana anda triste com esta ideia de o Hugo ser o favorito dos homens (e mulheres) e eu ser a favorita das mulheres… As crianças gostam de todos igualmente, acho.

Gosto muito dos meus companheiros. Toda a gente se está a amanhar muito bem nas suas diferenças e há uma profunda e enraizada noção de respeito.

Estamos a aproveitar um pouco de luz do gerador para escrever, ler e trabalhar. A Carina vai tomar banho e, a seguir, vamos jantar. Estamos a ouvir os “ah-ah” e acho que, pela primeira vez me lembrei de Portugal e do Belião, por causa da Mickey.

Hoje fiquei um pouco desencantada com a sessão de “qualquer coisa que os ponha a conviver” (aos jovens). Acho que essa será a dificuldade maior. Apesar de tudo, correu melhor do que eu estava à espera, mas o diálogo em português é impossível.

Terei de reformular todo o trabalho. É incrível o que trabalho aqui e o prazer com que o faço!

A sério que, às vezes, para além de ter a certeza do conforto de voltar, também me apetece ficar.

Se tiver tempo e a luz me permitir, talvez volte aqui depois do jantar.

…………….

E pronto, lá fomos estragar mais uma festa. Mal nós chegamos, é logo a loucura dos tugas braaaancos e da “foto, foto, foto”… Já quase proibi toda a gente de levar máquinaJ

A ver se vemos um filme ou isso.

Boa noite!

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