terça-feira, 25 de setembro de 2007

Agosto, 5 (3º dia)


Outro dia com dimensões novas.

Béli é, de facto, uma bela tabanka. Béli é, sobretudo, pessoas. Crianças, às dezenas, espalham-se pelo mato, pelos caminhos de terra vermelha, pelo pátio da nossa casa…

Acordámos com o cantar do galo, mas foi com o burburinho de crianças que nos levantámos. Tivemos todos a certeza desse momento único.

O grupo exprime pouco aquilo que é abusivamente óbvio: estamos dentro de um sonho, coroado do quotidiano agitado dos outros. É cedo. É muito cedo para tirar ilacções, mas é muito mais tarde do que cedo para definir por inteiro o desejo de ficar, ficar muito tempo.

As crianças ficaram para nos levar a passear orgulhosamente, num enroscar de mãos e olhares e sorrisos e gestos e passos miúdos, que nos arrastam e fazem levitar, em simultâneo.

“kuma?! Kuma di Kurpu? Kuma di família?!” – num delírio infantil, apaixonamo-nos por esta nova linguagem e cumprimentamos a todos.

Tinham-nos dito que eram poucos. Mas não. Saem de todo o lado! E as crianças riem de uma felicidade que nos entra pela pele naturalmente, como o sol. Como esta estação desconhecida, esta quinta Estação: a das chuvas.

O dia foi longo e árduo.

(As crianças riem, ainda).

A nossa casa já parece nossa. Está limpa e tem cheiros recentes. Os nossos cheiros misturam-se entre si e com os cheiros da terra. Estamos exaustos. São horas de reunião. Estamos exaustos e as crianças… sorriem dentro de nós.

Depois da reunião fomos ao rio. Nós e um rio de de gente, um rio de pés descalços, um rio de gritos, um rio de sorrisos, um rio de tanta paz!

Pensávamos que o dia tinha sido muito longo.

Nem nos ocorreu o lençol de estrelas que nos haveria de abrigar, nem nos ocorreu que o jantar fosse de domingo, nem nos ocorreu… nunca nos poderia ter ocorrido o sabor doce das lágrimas que nos escorrem nos rostos pálidos da escuridão.

A dança, o ritmo, os corpos que mandam no desejo e nas emoções da gente. Era, de facto, muito improvável que nos ocorresse África inteira… tão cedo, tão espontânea, tão nossa. Não nos ocorria que dias assim eram prováveis, possíveis, realizáveis.

E agora, no fim da festa, da agitação, do frenesim, só nos ocorre que as crianças sorriem muito por entre os sonhos.

Boa noite!

1 comentário:

Ana disse...

Descobri o seu blog por acaso, li alguns posts, são de ficar com água na boca, não percebi bem o que estão vocês aí a fazer, cooperação? sou jornalista, gostaria muito de trocar impressões consigo.
gomes.p.ana@gmail.com
Continuação de boa estadia e de bom trabalho.

Acerca de mim