Bom dia! “O mundo é uma ervilha”. Pequeno e muito condensado de informações. Ontem à noite, falei e escutei várias línguas na cosmopolita Béli… apesar dos esforços, parecíamos os únicos culturalmente deslocados. Enfim, nós e o alemão. Poderá ser uma coisa de cor de pele, mas sabemos que não.
Este “bom dia” é especialmente para alguém que se tornou muito importante ao longo deste ano, cujo convívio diário de tanta partilha terá que ser suspenso, pelo menos, por um ano. Tudo se relativiza a partir daqui, mas nunca nos esquecemos dos factos e das pessoas que marcam. O meu primeiro pensamento de hoje foi para S. Espero que a sua experiência nova seja tão gratificante como esta minha. E acho curioso o facto de ter conversado em alemão com um berlinense,
Hoje dormi pouco e fui dar formação. Há muito para dizer sobre isso, mas não cabe nestas linhas. Já voltei a dormir e estou a tentar acordar, de novo.
O episódio “lixívia”, do qual não dei conta neste caderno nem pretendo dar, deixou-nos a todos um pouco tontos e, mais que tudo, com a sensação de que éramos um pouco totós. Estamos a recuperar aos poucos disso.
Estamos a chegar do jantar mais divertido de que há memória. Eu tive vários ataques de riso, como que para fazer concorrência aos episódicos ataques da Carina, à hora das refeições…
Vou parar para seguir a reunião da Ana com o Mamadú. É o que eu digo: trabalha-se muito nesta terra!
A reunião acabou, vou aproveitar o resto da luz para escrever…
O Amadú é muito calmo, delicado e inteligente. Fiquei a saber que é muçulmano e que a sua filha fez o fanado com direito a excisão (nas suas palavras), “de uma forma razoável”. É estranho que eu estivesse a pensar nessas mesmas palavras, quando ele as usou. É demasiado assustador que tenha pensado no termo “razoável” para falar de tal coisa. Parece-me que é a sua figura ponderada que quase me convence que há uma forma razoável de provocar sofrimento, de ocultar prazer, de oprimir, de censurar, de usurpar, de marcar no corpo, para sempre, a amargura, a angústia, as lágrimas de gente que nunca aprendeu a chorar.
Os programas de rádio, parece-me, serão uma mais valia para esta comunidade. Consegui entusiasmar-me um pouco mais, ainda, com este projecto.
Hoje voltei a perceber o tempo com dificuldade. Mas esta foi a dificuldade da despedida anunciada. Parece-me que o tempo em Béli vai tomar uma velocidade superior. Talvez me apeteça pará-lo.
Bem, e falta dizer que vamos todos ver o “Verão azul”.
Boa noite!
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