sábado, 29 de setembro de 2007

Agosto,10


Há-de ser meio-dia. Estou a comer uma barra de cereais. Faço isto e tento relativizar uma série de coisas: o facto de a Ana estar adoentada, o facto de o tradutor que nos indicaram para as matronas só ter aparecido no primeiro dia, o facto de o cabo da impressora ter ficado em Gabú, o facto de ser cada vez mais difícil trabalhar em condições mínimas. O trabalho faz-se, mas não será fácil levar registos disso para Portugal.

Foi-me pedida uma “reunião” por causa da reacção que tivemos ontem com o Gheto. Não podemos intervir em nada. Foi-nos dito isto muitas vezes. Sabíamos que ia ser difícil. Estamos preparados, mas naturalmente não conformes com alguns aspectos da cultura local. Havemos de passar por isto juntos, tenho a certeza disso. Mas mais vale começar já o exercício das funções de “chefe”, como eles me chamam, antes que cresçam dissabores.

A tarde fechou-se sobre os meus pés seminus e trouxe os mosquitos…

AAAAAAAAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Estamos de volta da mesa, em exercício de várias funções. Está tudo bem. A Ana está melhor, o cabo da impressora chegou, como que por magia, ao início da tarde…

Hoje entrei, pela primeira vez, no rio. A água é castanha e o fundo tem as mesmas pedras saibrosas dos caminhos: às vezes, magoa, outras, faz cócegas. A árvore que está ao fundo é o lugar mais cobiçado para as crianças (e a Cátia e o Hugo) se empoleirarem como macacos e saltarem.

O Hugo tirou muitas fotos, hoje. Estão excelentes! Passeámos ao fim da tarde pela tabanka e descobrimos a mesquita e o forno. Está a ser um belo dia, quase se prolonga pela escuridão da noite.

Há luz. Muita luz dentro das nossas vontades.

E vem aí o primeiro fim-de-semana em Béli!... A ver…

(Resta dizer que o passeio de fim de tarde tinha o propósito de arranjar bananas… mas não encontrámos).

Viemos a casa depois do jantar. Os céus abriram-se sobre nós. Lembro-me que quando chove com mais intensidade nos longínquos Invernos de Portugal, tenho um pouco de medo… Aqui parece uma bênção. Acho que este período de chuva bate o recorde, desde a nossa chegada. Só verdadeiramente agora, percebo o conceito de “Época das chuvas”.

Agora, em conversa (que eu tratei de criar) voltámos a um ponto engraçado do dia de hoje: esta gente não precisa de calendários para nada. Por isso, praticamente ninguém sabe fazer a contagem do tempo… Foi muito difícil explicar às matronas os meses de gestação, porque elas não conhecem os meses, aliás, parece existir qualquer coisa calendarizada que se aproxima dos nossos meses (calendário lunar, claro está é “de luas”), mas o número de dias varia muito de “mês” para “mês”. Continua a ser inacreditável o nosso grau de ignorância sobre esta cultura.

Agora vamos dar dez passos até à rádio.

O.K. Demos vinte: dez para lá e dez para cá. Já estava fechada a cadeado.

Hoje, para terminar, vou só revelar que estou oficialmente viciada em choques anti-mosquitadas. E também que já não tinha memória de escrever tanto à noite e de dia e de canetaJ

Boa noite!

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