Há cerca de dez minutos que o céu voltou a rasgar-se sobre nós. Desta vez há vento.
Está escuro. Muito escuro.
Passaram mais de vinte minutos de chuva. Já acordou toda a gente. As pessoas passeiam-se normalmente e de bicicleta. Vi, pela primeira vez, um guarda-chuva em África e tive a sensação que a pessoa o ostentava com vaidade no pátio da sua própria casa.
Confirma-se – tenho mesmo o vício da escrita. Dou meia volta, desenho movimentos circulares sobre mim própria e, como não tenho vontade para outras coisas, volto a sentar-me, a abrir o caderno e a escrever, como se me sentasse para fumar um cigarro. Os meus companheiros acham que eu escrevo demais (enfim, nem todos). Parece-me que esta é a minha medida: escrever ao ritmo da própria respiração, à luz de vela, sob olhares que passam e parecem reconhecer-me. Sem o movimento das esplanadas, sem o conforto da Europa… Só eu, esta vontade, a chuva e África inteira a ter-me mão nos pés.
Passei uma noite muito má. Acordava com dores de estômago agudíssimas e já com lágrimas. Estou assim desde ontem (antes do jantar). Não sei se foi do doce de manga, que a Ana fez, ou se serão efeitos secundários da profilaxia da malária. Sei que dói. Lembro-me desta dor de quando era criança e comia a fruta verde. Tinha uma barriga enorme (como a das crianças daqui, que comem manga verde a toda a hora), e ia a correr enfiá-la entre as mãos da minha avó para que me massajasse. Que bom que seria ter essas mãos frias e magras a esfregarem-me esta dor, como dantes! Que bom que é poder ter esta lembrança, enquanto a dor se atenua e a chuva escorre do céu exausto e se ouve, lá fora, o correr alinhado dos regos de água acabados de formar.
12 dias de verborreia e um de diarreia. Ganha a última, que me parece mais forte. Finalmente, eu! Já era de esperar. Agora, um pouco de medo, muita água com cinza e muita capacidade de sofrimento… Pronto, vou ali.
E voltei à cama, umas horas depois. Estou um pouco indisposta e muito cansada. Não há água para beber e isso preocupa-me. Já há três dias que não temos água fria. Bebemos chã ou água morna, a saber a cinza, porque é aquecida no fogareiro ou no chão da rua…
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