domingo, 30 de setembro de 2007

Agosto, 14


De hoje a um mês voltaremos para Portugal. De novo o tempo a corroer-me os espaços largos da alma. São dez da manhã, hora local, e eu estou a acordar.

Queimar lixo, carregar água, ferver água, engarrafar água quente para beber quente, morna ou quase fria. Sonhar com cubos de gelo, iludir o calor com memórias de neve branca e distante… Lavar louça, no fim do almoço, acocoradas entre duas bacias de plástico. Sorrir às crianças que procuram nos nossos rosto microscópicos sorrisos, quase protocolares.

Procurar.

Procurar água, procurar banana, procurar manga, procurar carne, procurar ovos (isto não foi, ainda, encontrado), procurar lixívia na venda, procurar açúcar na venda, procurar calda de tomate na venda… procurar, procurar, procurar…

Procurar: eis o verbo que substitui o nosso “comprar”. Não é só poesia. É mesmo assim: procura-se tudo aqui. Nem tudo se encontra.

Encontrar.

Encontram-nos os mosquitos, as cobras, o paludismo, as febres, a fome, a sede, a doença… a morte. Sempre a morte a entrar casa dentro, sem bater, sem pedir licença, sem se demorar, sem mudar de ideias, sem contemplações. (Procurar sorrisos urge!)

Encontrar: eis o verbo que substitui, sem qualquer paralelismo, o substantivo “miséria”.

Tudo muda aqui. Muda, até, a morfologia das palavras.

Estamos a meio percurso de Béli. Procuramos tempo.

Voltou a anoitecer. Dói-me a barriga. Muito.

Sair daqui ocorre-me. Não digo “daqui”, de Béli, digo “daqui” daquele espaço que, às vezes, se invade de mim e sufoca instantes e fica à espera, expectante, certificando-se de que no limiar do sufoco, brilhará uma pedra estilhaçada de soluções.

O desenho filiforme das minhas emoções recomeça o seu movimento lúgubre. Consola-me o facto de não ter tempo, nem espaço, nem motivos para lhe dar continuidade.

Passa. Já passa. Isto há-de passar antes mesmo de adormecer… Talvez mais grave seja mesmo a dor de barriga. Por uma vez é a razão que me mutila a dispersão idiota dos sentidos. E amanhã, tenho a certeza, nada disto terá sido escrito. Amanhã, escreverei apenas sobre amanhã. Deixar-me-ei de cenários insondáveis.

Boa noite, Béli!

1 comentário:

Unknown disse...

1234567890 é a minha passe

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