Domingo, 9 do 9
Espirrei. Agora é esperar para ver o que acontece. Há uma parte de mim completamente preta: os pés. As sandálias desbotam e como passo a vida a chafurdar na lama e a escolher a melhor poça de água para lavar os pés a seguir… enfim, coisas de cá.
Hoje, organizámos uma festa/convívio no centro multifuncional. Começou “à partir di 4 hora”, que é a forma correcta de dizer horas certas na Guiné. Eu acho que passarei a usar essa e outras expressões que me parecem adequadíssimas ao contexto português.
Não aprendi a falar crioulo, mas já percebo muito bem muitas coisas. Tem uma lógica muito cultural, por isso, depois de se conhecer um pouco a cultura, entende-se melhor este português mal falado. Tem também algumas semelhanças, pela proximidade com o Senegal e a outra Guiné…
A festa correu bastante bem, apesar da chuva. E por falar nisso: acho que estes guineenses são um “cadito” medricas. Basta chover para a discoteca não abrir (eu sei que a pista é ao ar livre, mas não e justificação). Eu dancei e as crianças acharam muita piada… inventei umas coreografias e todos me imitaram cheios de sorrisos.
Tudo aqui é facilmente transformado num sorriso. Eu sei que me ando a repetir nesse campo, mas é impossível não ceder ao fascínio da evidência.
Vi mais sorrisos num dia de Guiné-Bissau do que num ano inteiro de Portugal. Não é que a comparação faça muito sentido… é só para nunca mais me esquecer que a alegria e os sorrisos não custam nada e que, mesmo que me pareça que o mundo vai desabar sobre a minha cabeça… “Ca tem problema”!
E mesmo depois de saber que os “djimbés” não vieram de Béli e que lá se foram 40.000 franc… “ca tem problema!”.
Arruínam-se as últimas horas. Hoje seria noite para sair: há um tapete de estrelas no céu de Gabú, mundial de estrelas”, como diria o Bucari, e as “rabadas” da cidade devem estar já no auge da agitação. Mas nós estamos cansados. É que, a brincar, a brincar, somos das poucas pessoas que trabalham e cumprem horários, nesta terra!
Ainda não são dez e meia e já só pensamos
Eu deveria pensar o que fazer na aula de amanhã. Espera-me mais um dia cheio. Será o último de formação. Em principio, voltamos para Bissau na quarta-feira, mas já há quem proponha quinta. Habituámo-nos a Gabú. Será difícil, a partida. Apesar de as dimensões não terem comparação, também já sentimos o carinho da população: já nos chamam pelo nome, quando passamos, já não somos só os “braaancos pelélé” de melodia arrastada, já não se riem de nós no mercado, quando fazemos negócios pelélé, já se riem menos de nós por andarmos à chuva… habituam-se a tudo, tal como nós:
Já não são tão insuportáveis os cheiros, já não são disparatados os hábitos, já paramos em poças de água escura e lamacenta para lavar os pés e achamos que ficam, de facto, limpos, já não nos espanta a fealdade dos abutres, já são menos longos os dias… já ficávamos…
Sem comentários:
Enviar um comentário