

Em que outra parte do mundo os vizinhos se fazem família e os amigos se fazem vizinhos?
Em que outra parte do mundo nos povoam a varanda, ao entardecer, para contar histórias, entrelaçar conversas, contagiar de alegria e de sorrisos, os nossos corpos cansados, as nossas vidas do longe?
Em que outra parte do mundo nos sentimos em casa, quando tudo é estranho e novo, quando nem o código de comunicação coincide, ou acontece de forma muito baça?!...
Em que outra parte do mundo ouvimos até ao fim o desenrolar da ideia mais absurda, do pensamento mais revoltante, da convicção mais ignóbil?
Em que outra parte do mundo somos capazes de dar, receber e criar espaço para tudo e para todos?
Em que parte do mundo se vai partindo e repartindo o meu coração com o coroar dos dias, dos momentos e das pessoas?
Parte-se em pranto, se aqui não se voltar. Parte-se a fazer parte e volta-se, um dia. Sabe-se sempre que se volta.
(horas depois)
Fomos jantar ao “pó di terra”, como sempre. O régulo Saico, o Bucari, a Sophie e a Natália fizeram-nos companhia. Eu hoje estou muito sossegada e não me apetecia fazer mais conversa. As refeições passaram a ser momentos quase familiares e, apesar de todos serem muito agradáveis, apetecia-me estar só com a minha gente… e gostava que a Carina também estivesse. Diria que começo a sentir uma certa nostalgia pelas nossas refeições em África com gente por quem começo a sentir coisas muito sólidas.
Eles dormem todos. Volto à solidão composta da varanda. O cenário do costume: eu, o caderno, a vela e a escrita que me vela os momentos.
O gerador calou-se. Oiço grilos e mosquitos ziguezagueantes no meu cabelo.
Falta uma semana para deixar Gabú e já não sinto que o tempo vá voar. Esta será, provavelmente, a semana de mais trabalho para mim. Estou a ficar bastante cansada, mas sei que será um prazer participar em todos os momentos de formação.
Hoje fomos prendados com a visita de Amadou e rimo-nos a bom rir com a desastrosa novidade de Béli. O Gto, ficou sem lábio, por se ter metido com a mulher errada… Mulher fula não está para brincadeiras e não foi de modas: zás arrancou o lábio ao homem! Parece-me que o desgraçado do Gto está em muito maus lençóis… Já não tinha dentes, agora tem a porta da boca escancarada! As coisas que se passam nesta terra!
Boa noite, Gabú!
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